Nova York Por Aqui
NOVA YORK POR AQUI
By Gilberto Smaniotto & Marinês Utteich
Reprodução
Cartaz de Central do Brasil, que estréia dia 20 em Nova York
Gilberto Smaniotto
Fernanda Montenegro: Eu fiz poucos filmes, mas todos eles muito bons, de muita qualidade
Gilberto Smaniotto
Walter Salles: O filme veio de um desejo de dar uma visão mais otimista do Brasil depois dos anos Collor
Central Station in New York
O cineasta Walter Salles, a atriz Fernanda Montenegro e o ator mirim Vinicius de Oliveira desembarcaram em Nova York com um só propósito: divulgar o filme Central do Brasil para os americanos. O Central Station como é chamado aqui, será exibido na Big Apple a partir do dia 20. Na pré-estréia para a crítica especializada teve americano derramando lágrimas pela estória de Josué, um garoto de 9 anos à procura do pai, e Dora, 67, uma professora aposentada e escritora de cartas da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. A trupe conversou com Nova York Por Aqui sobre as expectativas para a exibição do Central nos Estados Unidos. O filme já levou para os cinemas brasileiros mais de 1 milhão e meio de pessoas, o maior número de espectadores por sala de exibição, ficando na frente até mesmo da produção americana Godzilla e do próprio Titanic. Depois de ganhar o Urso de Ouro de Berlim, como melhor filme, e o urso de prata de melhor atriz, Estação foi escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.
Qual a expectativa de ver Central do Brasil nas finais, ou recebendo a estatueta?
Walter Salles - O Central do Brasil foi indicado assim como 50 outros países indicaram os seus representantes. Quer dizer, a partir daí começa um funil muito complexo. Eu não tenho como fazer qualquer previsão. Eu vejo o que as pessoas falam do filme. Os jornalistas americanos falam constantemente de Central do Brasil como um dos que poderão estar entre os finalistas, mas eu prefiro não fazer nenhuma previsão, seria precipitado.
A indicação para concorrer ao melhor filme estrangeiro foi uma surpresa?
Fernanda - Eu sou uma atriz contratada pela Vídeo Filme, para filmar dentro do Brasil. Tudo o que aconteceu além dessa fronteira é absolutamente maravilhoso e inesperado no sentido de que não se partiu daí. A gente fez um filme com uma produção muito modesta, e o filme estourou. É uma coisa fantástica para uma estória de uma velha com uma criança. Um filme sem erotismo, sem nu, sem nenhum tipo do que seria chamado apelo de bilheteria. Eu acho até que a humanidade está cansada dos apelos de bilheteria.
Se você tivesse que dizer uma razão para o Central ser escolhido, qual seria?
Fernanda - É um filme feito absolutamente com o coração. Foi feito numa intensidade de vida ou morte, em termos de indústria cinematográfica brasileira. O cinema brasileiro é muito interessante, porque praticamente desde o Cinema Novo ele tem recebido centenas de prêmios internacionais. Eu fiz poucos filmes, mas todos eles muito bons, de muita qualidade. Tem uma coisa sempre eternamente pioneira, nós estamos sempre recomeçando. Eu acho que o Central é uma retomada. Então é por tudo isso, por essa revitalização, por esse calor, por esse vamos em frente. No final deste milênio, nos 100 anos de cinema no mundo e 70 no Brasil, nós temos referencial, temos um caminho a seguir.
Quando o filme foi mostrado para estudantes de cinema aqui na América todos ficaram curiosos sobre a vida de Vinicius, e muitos, inclusive atores e diretores de cinema, compararam ele com o Pixote. Como você vê isso?
Walter Salles - Talvez a mais simples e estúpida das comparações. O Pixote era um menino que não sabia ler e escrever, exatamente o oposto de Vinicius. Ele sabe ler, escrever, voltou para a escola e é hoje um dos primeiros alunos da turma. Vinicius tem uma família sólida, uma mãe extremamente presente. Ele está aqui nos Estados Unidos acompanhado da professora dele, exatamente para não perder o ano letivo. Ele tem os estudos garantidos pela produtora até o final da universidade, de maneira que ele tem os instrumentos necessários para escolher o que ele quer ser no futuro. Se por um acaso não quiser ser ator, mesmo que tenha talento para isso, pode ser arquiteto, jornalista, a opção é dele.
Fernanda - Existe aí toda uma demagogia em cima do garoto, e eu vejo isso com pouca simpatia. Vinicius não é um delinquente. É um menino pobre que trabalha como em qualquer cidade do mundo. Não é só no Brasil que as crianças trabalham para ajudar a família. Às vezes eu leio notícias sobre o Vinicius, principalmente aqui de fora do país, em que parece que o Vinicius era um bandidinho de rua. Não, o Vinicius estava morando pobremente na época em que era engraxate. Tinha uma casinha pobre, mas tinha. Ele é um menino coordenado, inteligente. Depois do filme a família está morando numa casa melhor, a mãe parou de trabalhar para cuidar dos quatro irmãos. A vida do garoto não é esse fim de linha, que sei lá, por uma razão qualquer, até demagógica em torno do lançamento do filme aqui fora, se possa fazer. Eu quero dizer isso muito claramente porque a gente precisa tirar o Vinicius dessa quase marginalidade que estão colocando ele.
O filme passa por quatro Estados: Rio, Bahia, Pernambuco e Ceará, mas todas as cenas mostram apenas lugares pobres e tristes, por que isso?
Walter - Eu acho que vocês estão tendo uma visão talvez de quem more aqui há muito tempo. Eu não vejo assim. O filme é imbuído de uma alegria na segunda parte. Evidentemente nós estamos distantes da visão da Embratur e do Instituto de Turismo Brasileiro. Eu estou muito mais interessado pelo Brasil real do que pelo Brasil do real. Eu acho que esse filme é uma afirmação de vida, da possibilidade de um encontro entre as pessoas. É sobre o que a gente tem de melhor no Brasil e a gente não olha. É sobre uma qualidade humana que existe no País que vai além da questão da pobreza ou da miséria. Talvez seja uma forma justamente de atacá-la, passar por cima dela e transformar as coisas. Se a gente só mostrar a praia de Copacabana é uma visão puramente cosmética, estamos fazendo um deserviço para as gerações que vão vir ainda pela frente. Acho que o filme é imbuído de um profundo desejo de transformação, de um profundo otimismo, sem deixar de dizer: olha o País está assim, mas talvez ele possa um dia estar de outra forma.
Não preocupa você a possibilidade de que para o público estrangeiro fique a impressão de que o Brasil é só isso?
Walter - O Brasil é também isso. Por isso a gente precisa de uma produção cinematográfica diversificada e plural, para dar conta desse País tão complexo. Às vezes generoso, às vezes cruel e sempre polifônico.
Como foi gravar na Central do Brasil? Nós sabemos que quando montaram sua mesa na estação as pessoas se aproximaram pensando que você realmente escrevia cartas.
Fernanda - Nós chegamos a fazer alguns laboratórios. Como o Walter sempre colocou a câmera muito discretamente, sem chamar a atenção, no fim de dois dias nós já estávamos integrados naquele mundo de pobreza e de necessitados que é a Central do Brasil. Eu sou uma atriz muito conhecida, mas da maneira como eu estava vestida, o lugar onde eu estava, eu acho que passou pela cabeça daquelas milhares de pessoas que não seria eu que estaria ali. Porque eu não poderia estar ali daquele jeito, com aquela cara, com aquele cabelo, com aquela roupa. Então criou-se uma realidade de relacionamento e isso foi muito bom para o filme, porque o filme tem também esse caráter documental.
De onde veio a inspiração para fazer Central do Brasil?
Walter - O filme veio de um desejo de dar uma visão mais otimista do Brasil depois dos anos Collor e daquele momento de pessimismo nacional. Eu tive um desejo de falar daquele País de uma forma diferente. Num primeiro momento tem toda a parte urbana, mostrando tudo o que caracterizou um pouco do Brasil dos anos 70, 80 e 90. A cultura da indiferença, da impunidade, tão comuns. E depois, na segunda parte do filme, na estrada, reencontrar um outro país, mais generoso, onde a solidariedade, a amizade, o companherismo, o respeito pelos outros são possíveis. Um dia eu acordei com a história inteira na cabeça.
Você fez testes com mais de 1.500 meninos e não estava satisfeito com nenhum deles. Acabou ficando com Vinicius que é um menino pobre, que conhece a realidade do filme. Isso foi intencional?
Walter - Sim, eu estava procurando um menino que conhecesse a luta pela sobrevivência, mas que não tivesse perdido a inocência nesse processo. O que nós tínhamos achado era de um lado crianças que tinham perdido a inocência na batalha da rua, e do outro, garotos excessivamente protegidos. Era muito difícil encontrar esse meio termo. Até que o Vinicius nos descobriu. É muito mais correto dizer que ele nos descobriu. O Vinicius para mim representa uma possibilidade muito diferente para o País. Ele é um garoto que em vez de ir para a rua pedir dinheiro ou cometer pequenos delitos, simplesmente construiu, ele mesmo, uma caixinha de engraxate e optou por trabalhar 12 horas por dia no aeroporto, de uma forma digna e honesta. Vinicius é o outro lado do País do Jeitinho, do País que sempre tenta resolver os seus problemas de uma forma esperta e imediatista. O garoto também tinha um talento inato para representação, algo incomum. Foi um jogo de dados, um acaso realmente que nos colocou frente a frente, mas é a prova do quanto existe de talento perdido naquele País, de quantas pessoas poderiam ser reconhecidas e não são porque não têm uma chance.
A Dora é uma mulher amarga, solitária, foi difícil ser essa mulher?
Fernanda - Ela é difícil até a gente compreendê-la. Depois que a gente acha um canal para fazê-la, ela fica no sangue, ela fica nas veias. A Dora foi acuada e regredida pela vida. Na minha adolescência ser uma professora era algo muito importante, algo que credenciava socialmente a pessoa. A história do País fez do processo de educação algo muito delicado. O chamado professor primário, secundário, ou mesmo os acadêmicos são pessoas que trabalham por amor à causa, porque do ponto de vista de resultados, de recompensas econômicas ou mesmo até de prestígio, isso foi regredindo dentro da história do País. A Dora é uma mulher que se formou, tem uma profissão. Acho que foi isso também que fez o filme ter o sucesso que teve no Brasil. Porque toda a nação entende o que é a necessidade. Entende como uma pessoa preparada para o ensino, que se vê acuada pelo processo social do País, passa a ser, não digo uma marginal, mas uma mulher que vive de pequenos golpes eventuais como é o caso da Dora. Não que todos os professores do Brasil façam isso, pelo amor de Deus, porque às vezes a gente diz uma coisa e a coisa se transforma numa catástrofe. Não é isso. Mas como a Dora, o professor primário é muito sacrificado, ainda mais se for aposentado.
Gilberto SmaniottoVinicius de Oliveira: Já conheci um monte de lugares novos, viajei bastante, é muito bomUm conto de fadas
Tímido, meigo, o garoto Vinicius de Oliveira, de 10 anos, está encantado com as modificações na vida dele. Do aeroporto do Rio de Janeiro, onde trabalhava engraxando sapatos, foi parar nas telas do cinema e agora está conquistando o mundo. Em Nova York, entre os compromissos que tem com a equipe do Central do Brasil, ele aproveitou para patinar no Central Park e assistir a alguns shows da Broadway.
O que você está achando dessa nova vida, ter que dar entrevistas, posar para fotos?
Vinicius - É muito legal. Já conheci um monte de lugares novos, viajei bastante, é muito bom.
Você já foi ver algum show da Broadway?
Vinicius - Já vi The Lion King, A Bela e a Fera, e Stomp. Este foi o que eu mais gostei.
Como foi seu encontro com o Walter Salles?
Vinicius - Eu estava trabalhando no aeroporto, estava chovendo e eu não tinha muito movimento, daí eu pedi a ele um trocado para comprar um sanduíche.
Quando o Walter o convidou para fazer um teste para o cinema o que você pensou?
Vinicius - Eu achei legal, mas minha mãe ficou preocupada. Ela tinha medo de que não fosse verdade, que poderia ser algum rolo, alguém querendo me roubar.
Você foi fazer o teste no dia seguinte?
Vinicius - Não, eu fui trabalhar. O Walter tinha me dado o endereço e apesar do lugar ser perto do aeroporto eu não sabia chegar lá. Eu só sei ir de casa para o aeroporto e voltar. Mas daí ele mandou me buscar.
E para o futuro, o que o você pensa em fazer?
Vinicius - Vou continuar estudando. Também gostaria de continuar sendo ator, talvez trabalhar para TV ou fazer mais filmes.
POR AQUI & POR AÍ
Semana que vem a gente volta para falar da Big Apple. See you next quarta again.
Bye, Bye.
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