Foi preciso que a nata dos autores da teledramaturgia chegasse à terceira idade para que as emissoras despertassem para a necessidade de renovação dos novelistas. Nomes como Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa e Lauro César Muniz, entre outros, já anunciaram, há tempos, o desejo de parar de escrever novelas. Atualmente, sempre que concordam em assinar alguma, prometem que será a última.
A aposentadoria de autores consagrados é vista como um fator de risco pela direção das emissoras. E por um bom motivo: o segmento da teledramaturgia costuma ser o mais rentável da tevê. Em 2011, a Globo faturou mais de 7 bilhões de reais só em comerciais, sendo que grande parte desse valor apenas dos intervalos das produções de novelas.
Por isso é tão importante o surgimento de escritores de tevê. E que façam sucesso. Prova disso é a atual grade da emissora, ocupada por novos autores em quase todas as faixas. No horário das 21h, com ''Avenida Brasil'', João Emanuel Carneiro assina sua segunda trama no horário. Já às 19h, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira estreiam como autores solo com a bem sucedida ''Cheias de Charme'' com a supervisão de Ricardo Linhares. E, às 18h, estreia no próximo dia 10 ''Lado a Lado'', de João Ximenez Braga e Claudia Lage, supervisionados por Gilberto Braga. ''O João Ximenez foi colaborador meu e do Ricardo Linhares. O cara é cobra e tinha virado nosso auxiliar inestimável. Era preciso novos autores porque nós estamos cansados. Já escrevi novela demais. Sou um limão espremido'', brinca Gilberto.
Quase todos os autores que estão estreando como principais nas tramas já possuem uma extensa carreira como colaboradores, como Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Filipe colaborou em quatro novelas de Aguinaldo Silva, enquanto Izabel estreou como colaboradora em 2000, com ''Esplendor'' e já trabalhou com diversos autores. ''Eu sinto muita influência do Aguinaldo no meu texto. Ele me ensinou muito'', aponta Filipe.
Para Ricardo Linhares, que atua como supervisor do trabalho dos ''estreantes'' da trama das ''empreguetes'', a extensa carreira de ambos como colaboradores os preparou para estrear com um folhetim de destaque. ''Eles são antenados, criativos, têm um excelente diálogo e a novela tem uma estrutura dinâmica. Estavam prontos para assumir a titularidade de um folhetim. Essa renovação de autores é fundamental'', salienta Ricardo.
Na Record, pelo menos duas autoras têm assumido tramas importantes para a emissora nos últimos anos. Gisele Joras venceu um concurso de roteiros na emissora e já estreia sua terceira trama na emissora em outubro, intitulada ''Balacobaco''. Já Vivian de Oliveira, roteirista da emissora há anos, só começou a fazer teledramaturgia há pouco tempo e passou a assumir a autoria de todas as tramas bíblicas da Record. ''Escrevo desde os 15 anos de idade. Comecei como redatora de um programa do Ronnie Von. Esta é uma carreira muito restrita, principalmente para quem está começando. As oportunidades são mínimas'', avalia Vivian, que estreia, em janeiro, a minissérie ''José - de Escravo a Governador''.
Normalmente, cada autor estreante, além de contar com um supervisor renomado, também começa a escrever com uma média de três a cinco colaboradores que vêm das oficinas de roteiro da Globo. Quando assumem a titularidade de um folhetim, o salário de um autor estreante começa em torno de R$ 100 mil mensais quando está no ar, enquanto um autor veterano ganha entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão por mês no ar. ''Tomei a iniciativa de apresentar uma sinopse para a emissora porque a gente estava ganhando muito mal. Fiz a sinopse para mostrar serviço e conseguir um aumento'', assume João Ximenez.
Para chegar no pódio dos renomados que assinam tramas do horário nobre, a estrada costuma ser longa. No entanto, João Emanuel Carneiro pegou um ''atalho'' em seu caminho. O autor, ainda considerado ''novato'', estreou como titular em 2004, com a trama ''Da Cor do Pecado'', mas logo foi se destacando até estrear no horário das 21h com ''A Favorita'', faixa que não era ocupada por um novo autor há 15 anos. Agora, no ar com ''Avenida Brasil'', João se destaca com um estilo diferenciado em seus folhetins. ''Essa renovação tem acontecido em um momento crucial. Sou o autor mais novo desse horário, mas sou eu quem mais me cobra por isso, não a emissora. Não quero ser genial, quero me orgulhar das minhas histórias'', observa João. ''Já eu prefiro nem pensar que estou assumindo a titularidade de uma trama para poder dormir à noite'', diverte-se Claudia Lage, ansiosa com a estreia.

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