Nova produção de "Don Giovanni" estréia amanhã em SP
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 05 (AE) - Como Leporello, apenas por prazer, coloque mais um "Don Giovanni" em sua lista: estréia amanhã (06), no Teatro Alfa, em São Paulo, uma nova produção da sedutora ópera de Mozart sobre o temerário conquistador espanhol. Regida por Jamil Maluf, à frente da Orquestra Experimental de Repertório (uma garantia de montagens honestas e empenhadas), esse "Don Giovanni" tem direção cênica do inglês Aidan Lang (que já trabalhou em Glyndebourne e no Covent Garden, de Londres), cenários e figurinos emprestados da Opera Zuid, de Maastricht, na Holanda, e um bom elenco de cantores que reúne o polonês Zbigniew Macias, Rosana Lamosa, Fernando Portari, Sebnen Mekinulov, Sandro Christopher e Gabriella Pace, entre outros. Nem mesmo o catálogo do nobre cafajeste tem tantas nacionalidades reunidas.
A boa novidade é que você poderá se informar sobre a ópera em duas palestras realizadas pelo maestro Abel Rocha, neste domingo e na terça-feira. Importante, mas não fundamental para babar de prazer diante dessa obra-prima mozartiana, que estreou em Praga (onde Mozart era bem-recebido, ao contrário do que ocorria em Viena) em 1787. Como "Cosí Fan Tutte" e "As Bodas de Fígaro", "Don Giovanni" tem libreto de Lorenzo da Ponte (baseado na peça de Tirso de Molina), responsável pelas melhores inspirações dramáticas do compositor, em especial nesta ópera, uma intricada mistura de intensidade, ternura, erotismo e comédia de todo o tipo.
Ao longo de toda a ópera, noturna, o sedutor se dá mal e foge constantemente de seus perseguidores, incapaz de realizar nem sequer uma conquista com sucesso. Mas a simpatia de Mozart está com ele. Por fim, mesmo consumido pelas chamas infernais, o desastrado ladrão de corações femininos deixa marca profundas e indeléveis naqueles que conheceu. Acima de tudo, "Don Giovanni" fala sobre liberdade, fruto de idéias iluministas e já acenando para a escuridão do romantismo. Mais até do que em "As Bodas de Fígaro", Mozart e da Ponte atacam os valores aristocráticos com uma das mais poderosas armas da Revolução Francesa: a liberdade libertina dos aristocratas que os levaria, rindo de si mesmos, à guilhotina .
"Don Giovanni" não respeita regras de conduta, diverte-se em roubar a honra dos que o cercam, adora a companhia dos servos (desejando que la ci darem la mano e digam que sim) e grita em alto e bom som, num teatro real, viva a liberdade. Em meio a uma sociedade que cultivava o bon mot, o double entendre, essas, hoje pequenas, subversões eram muito bem compreendidas. Sintomaticamente, o canalha que adora meninas e leva velhinhas para a cama apenas pelo prazer de pô-las em sua lista, morre com coragem, negando-se a renegar a sua vida para um obsoleto comendador de pedra. Mais uma montagem de "Don Giovanni"? Tudo bem, que venham outras 1003. Serviço - "Don Giovanni". Regência e direção musical de Jamil Maluf. Duração de 3h50. Sexta e terça, às 20h30; domingo, às 17 horas. De R$ 80,00 a R$ 120,00. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 56893-4000.


