São Paulo, 27 (AE) - A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar, afirma Cecília Meireles em "Uma Hora em San Gimignano", texto do belo volume "Crônicas de Viagem", o segundo de três que integram o projeto de publicação de toda a sua obra em prosa pela Nova Fronteira.
Viajar é "ir em peregrinação, participando intensamente de coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre". É também "estar constantemente emocionado - e nem sempre alegre, mas, ao contrário, muitas vezes triste, de um sofrimento sem fim, porque a solidariedade humana custa, a cada um de nós, algum profundo despedaçamento".
França, Espanha, mais uma vez Portugal (que havia visitado anteriormente em 1934), Holanda, Bélgica, Itália, Índia. A poetisa carioca viajou por esses países nos quatro primeiros anos da década de 50 e a alguns, voltaria depois.
No entanto, não foi uma turista típica, câmera na mão a registrar freneticamente as imagens de locais famosos, a gastar as solas dos sapatos em busca de souvenirs, a contratar o serviço de guias nos museus. Ela disse, em texto que está no volume 1 das crônicas de viagem, publicado em 1998: "Tudo quanto aprendi até hoje - se é que tenha aprendido - representa uma silenciosa conversa entre os meus olhos e os vários assuntos que se colocam diante deles ou diante dos quais eles se colocam."
Uma "silenciosa conversa" a princípio, depois transformada em relatos que encantam o leitor que ama viajar pelo que contêm de vida, encontro com pessoas, civilizações e culturas contrastantes, suas cores, sons, aromas, sabores, paisagens, tudo numa linguagem altamente elegante, cativante e, principalmente, cheia de lirismo. Uma "silenciosa conversa", aliás, que também rendeu à literatura brasileira alguns dos mais belos livros de poesia deste século: "Doze Noturnos da Holanda", "Poemas Italianos" e "Poemas Escritos na Índia".
Para viajar com Cecília não é preciso nem lenço, nem documento, nem hora marcada: apenas embarcar na leitura com a disposição de um viajante verdadeiro. "Não há pior coisa, para uma pessoa imaginativa e andarilha, que viajar com hora marcada. Que diz o ponteiro do tempo? Quase 3. Que diz o ponteiro da gasolina? Tanque cheio. Poderíamos agora mudar de estrada, e procurar este caminho em ziguezague onde se lê no mapa Barbadillo del Mercado. Pois não saberemos quem é esse Barbadillo nem que mercado é o seu, porque hoje mesmo temos de chegar a Salamanca", escreve em "Entre o Relógio e o Mapa".
Embora a maioria das crônicas reunidas neste volume sejam sobre o exterior, o ponto de partida é o Rio, onde Cecília nasceu, em 1901, e morreu, em 1964, presente com três textos em que ela deplora a destruição das belezas naturais, o avanço de "galerias de cimento que interceptam a vista por todos os lados" e lamenta a ocorrência de uma enchente.
Em seguida, num piscar de olhos, está-se em Paris, cidade que não tocou muito o coração da poetisa, que, em entrevista a João Condé, publicada nos "Arquivos Implacáveis" da revista "O Cruzeiro", em 31 de dezembro de 1955, dizia que, até então, não tinha conseguido gostar de Paris, embora admirasse a França.
É na Espanha, então, que começam as emoções do privilegiado leitor, levado pelas mãos dessa guia tão sensível e erudita, que evoca as vozes de outros poetas, inserindo-os com maestria na paisagem. "Ainda é dia quando chegamos a Salamanca. Escurece muito tarde, por estes lados, no verão. Atravessamos a Plaza Mayor e a primeira pessoa que avisto é d. Miguel de Unamuno, que, no entanto, está morto há muitos anos. Mas Salamanca é sua. Pertence-lhe por direito de amor: Remanso de quietud, yo te bendigo/ mi Salamanca!" Metastásio, Dante, Anacreonte, Jorge Manrique, Rilke e até Castro Alves e os inconfidentes mineiros são também lembrados pelas estradas e locais europeus e indianos.
Já o país de Van Gogh e Rembrandt a faz confessar: "O que me faz sofrer, na Holanda, é não ser água-fortista. Pontes, canais, desenhos da água, fachadas pontiagudas das antigas casas
torres de palácios e igrejas, relógios, chaminés, degraus de entradas e frontarias, árvores, realejos, carros, barcos embandeirados, guindastes, janelas, flores, ganchos, correntes, lampiões, telhados, tijolos, estufas de vidro, tudo solicita uma aptidão que não tenho, tudo é linear, fino, agudo, incisivo, com o lirismo do exato e do minucioso - um lirismo de pensamento mais que de coração."
A Itália, país muito amado pela poetisa, ganha páginas apaixonadas e ocupa boa parte de Crônicas de Viagem. Roma, Nápoles, Sorrento, Florença (onde se faz acompanhar de Dante), Siena, Veneza...
Em Roma, o local preferido dela é a Fontana di Trevi, uma "aparição mitológica". A fonte é "um festival de deuses, entre águas sussurrantes que surgem por todos os lados, prateadas, verdes, espumantes, encaracoladas, sob o olhar de Netuno circundado de tritões e de cavalos que ainda estão saindo do mármore".
A certa altura, cronista e leitor-viajante deparam com a diferença: "Estar em Roma e pensar na Índia é como sonhar, apenas, que se esteve lá. O principal contraste é a densidade. A Índia é toda fluida: os palácios, os templos, os monumentos são rendados, embrechados, recortados, o céu com o sol e a lua e as estrelas atravessam esses pórticos, andam por esses salões, mesmo quando estejam fechados... Roma, embora transborde dos antigos muros, conserva aquelas paredes que lhe dão majestade, grandeza, mas também uma austera impenetrabilidade."
Num 31 de dezembro, Cecília passa o réveillon num avião, a caminho da Índia, cuja cultura a fascina desde a adolescência, para um seminário sobre um homem que sempre admirou muito, Gandhi. O roteiro passa por Bombaim e por Nova Délhi, onde se realizou o congresso, do qual ela dá notícia em várias crônicas. "São belos estes dias de Nova Délhi, não apenas pelas cores do céu e da terra, tão límpidas e brilhantes; não apenas por quanto já descrevi destas ruas, destas casas escondidas em jardins verdes, destes palácios, destas festas, que se sucedem nas várias embaixadas, em homenagem aos congressistas - mas pelo próprio congresso que, um depois do outro, vai apresentando os diferentes pontos de vista dos que o integram em relação a Gandhi e à consolidação da paz no mundo."
Depois de discutir política internacional, a poetisa toma a direção leste no país do mahatma e visita várias cidades, entre elas Benares e Calcutá, onde se "encontra" com o poeta Tagore numa exposição com fotos e desenhos dele na Biblioteca Nacional.
"Grande é o mundo, para a ambição dos viajantes; grande é, principalmente, a Índia, com tantas heranças de arte distribuídas em tantas direções. Não creio que uma pessoa, por mais dotada que seja em observar e descrever, possa, na duração de uma vida, contemplar e sentir todas as maravilhas que se acumulam aqui e ali, onde cada flor, cada árvore, cada animal, cada pedra preciosa, cada imperador, cada guerreiro, cada poeta, cada eremita, cada palácio, cada templo tem de tudo, desde Deus, em todas as suas aparências, até um ponto de bordado, é centro de mil histórias, com mil significados e mil interpretações", conclui em "Pensamentos do Caminho". Vale para a Índia. Vale para todos os países por onde se aventurem os viajantes.

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