NOVA ERA NASCE SOB O SIGNO DO AMOR
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de maio de 2000
Bernardo Pellegrini De Londrina Especial para a Folha2 
Nos anos 60, aqueles jovens animais da espécie humana estavam enchendo o planeta de novas cores, novas sonoridades, novos sonhos, novas sínteses - e principalmente, novos signos. Quem passasse de carro por uma estrada da Califórnia, já em 1961, por exemplo, poderia dar de cara - a qualquer momento - com estranhos rabiscos inscritos nas pedras à antiga maneira dos druidas celtas. Uma letra do alfabeto rúnico - Algiz, a runa da Proteção - desenhada em posição invertida, resumia em duas palavras toda uma plataforma para um mundo que saltasse suavemente por sobre toda a escalada militarista, toda a tradição autoritária, toda a lógica da culpa, do sacrifício e do trabalho alienado: PAZ E AMOR.
Eram palavras-chave que abriam portas para nada menos do que um novo projeto de mundo - uma Nova Era. Esse projeto fez dos artistas, dos cientistas malucos e dos ricos inteligentes eficientes propagandistas - mas só ganhou dimensão planetária quando um pequeno grupo de teatro levou em Nova York, na virada dos anos 70, aquele musical despojado e impertinente - Hair. A canção tema do espetáculo, Aquarius deu àquela convulsão espontânea um contorno de nítida rebelião cultural. Mas, principalmente, deu ao projeto da Nova Era o que faltava: uma dimensão profética - e com isso, uma linguagem universal. Quando a Lua se alinhasse a Júpiter e o cosmo começasse a sua deliciosa conspiração sensual, então viria um tempo de harmonia e fruição absoluta do prazer em sua forma mais potente: o amor.
Desde então, a mais essencial das emoções humanas permeia o cotidiano planetário como referência de toda uma nova subjetividade, mas também na construção de uma utopia. Fazendo dos sonhos os rascunhos de nossos projetos reais, colocando em sua dimensão ecológica a emergência do desejo, acabamos fazendo do amor um estado de permanência, o trouxemos para o cotidiano - nos tornamos os arautos de uma profecia anunciada.
Descobrimos no amor uma fonte permanente de novas possibilidades - e pudemos vislumbrar num projeto de utopia social toda a sua potência. Pensamos no amor como alimento da fé, pensamos no amor na hora de nos vestir, no momento histórico inusitado de sentir a mulher como homem e o homem como mulher. Foi confiando no poder do amor que os pais dividiram com as mães o afeto na formação das crianças. Confiando no poder transformador do amor, vimos em cada novo casal enamorado uma nova possibilidade de futuro.
Descobrimos que o amor é feito de dia-a-dia, de variações que podem seguir sempre além se a convivência lhe dá sentido ético. Foi uma estranha conquista da espécie descobrir no amor também a sua dimensão destrutiva - a ameaça da retirada e perda do amor como o grande instrumento de chantagem, como maior instrumento de poder. Descobrimos (gratificados) que o contrário da morte não é a vida - é o amor. De uma maneira silenciosa, nos conformamos aos seus desígnios. E assistimos ao seu triunfo. Que ninguém se poupe de celebrar Aquarius: desde o anúncio da profecia e cada vez mais, a alegria, a sensualidade, o prazer e o amor se tornaram referências e critérios no dia-a- dia das pessoas.
Naqueles anos verdes, ninguém poderia imaginar que nossa sociedade industrial entraria em colapso nas duas décadas seguintes, no mesmo instante em que vive seu momento de maior prosperidade. Os corpos rebelados na grande saga aquariana envelheceram. No ano de 2025, pela primeira vez na história da espécie, os 1,1 bilhão de indivíduos com mais de 65 anos serão em número superiores ao número de bebês com menos de um ano. Até lá, mesmo a Nova Era terá se tornado velha e a velha gestado uma nova Nova Era. Até lá e sempre, o amor será a perda do controle e a possibilidade do novo. Que amor nos espera, que utopia construiremos?


