Nova edição da "Divina Comédia" terá ilustrações do século XV
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quinta-feira, 04 de março de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 05 (AE) - Gravuras raras feitas no século 15 vão ilustrar uma nova edição da "Divina Comédia", de Dante Alighieri. A edição, da Musa Editora, foi selecionada pela Lei Rouanet para captar patrocínio e deve custar R$ 167 mil. As gravuras raras - serão editados inicialmente apenas o material do Inferno e do Purgatório - só foram publicadas anteriormente em 1478, numa única edição da "Divina Comédia", de propriedade da Biblioteca do Vaticano.
A brasileira será a segunda edição a contar com as gravuras do duque de Urbino, o cortesão Guidobaldo di Montefeltro, um dos maiores mecenas do Cinquecento. Também será uma edição de tradução peculiar (feita em prosa literal e com o texto original ao lado do português), de Sylvio do Amaral.
Guidobaldo, o duque de Urbino, viveu, entre os anos de 1460 e 1480, numa região da Itália particularmente iluminada. Foi em Urbino, cidade próxima a Florença, a 40 quilômetros do mar, uma das mais velhas cidades italianas e que é famosa, entre outras coisas, pelo estupendo Palazzo Ducale, construído pelo duque.
Tanto Guidobaldo quanto seu pai, Federico di Montefeltro
conseguiram reunir um dos mais respeitáveis times de artistas de sua época ao seu redor: Piero della Francesca, Franco dRussi
Gugliamo di Girardi, Giusto Bigand, entre outros. Gugliamo di Girardi, influenciado por Piero de La Francesca, é o autor das gravuras, com alguns dos seus alunos.
Como as gravuras vieram parar no Brasil? Em 1965, a Biblioteca Apostólica do Vaticano fez uma edição fac-símile do chamado Dante Urbinate, a versão do duque de Urbino para a "Divina Comédia". O italiano Carmelo Distante, hoje professor de literatura italiana da USP (e na época, da Universidade de Pisa, fundada em 1343) comprou o exemplar de n.º 39.
O professor Distante, de 70 anos, é um dos mais respeitados estudiosos do período do Cinquecento no Brasil. Ele concordou em ceder suas cópias para a Musa Editora, que não pretende publicar todas as ilustrações do Dante Urbinate. "A parte do Paraíso só foi terminada muito tempo depois, em 1881, com gravuras de outro estilo e que não nos interessaram", diz Ana Cândida Costa, da Musa Editora.
Para o professor Carmelo Distante, a publicação de parte das gravuras raras do Dante Urbinate traz à luz também um dos mais profícuos períodos do Renascimento, retratados no livro "Il Cortegiano", de Baldassari Castiglione: o período do "luomo di corte" (o homem da corte).
Era um tempo em que o governo se fazia cercar de um cidadão especial, espécie de paradigma de civilidade, que além de ocupar-se de todos os problemas morais e sociais da corte, era também um modelo de humanismo. "Devia ser capaz de mostrar o espírito magnífico, o equilíbrio psicológico, moral, cultural", diz Distante. "Não era afetado ou caricato, fazia tudo naturalmente: devia saber discursar e também bailar com a máxima naturalidade."
O duque de Urbino, Guidobaldo, foi um expoente entre os cortegiani, assim como Petrarca ou mesmo Leonardo da Vinci. "Isso demonstrava que a corte, por volta do Cinquecento, era o centro da cultura, e essa cultura que se produzia ali era do mais alto valor", diz, antes de fazer um paralelo com a situação atual do País. "Hoje, nós estamos perdendo o abraço universal do mundo", lamenta.
O Dante Urbinate não ficou célebre como as gravuras de Gustave Doré, que ilustraram a versão mais difundida da Divina Comédia. Foi só em 1657 que a Biblioteca do Vaticano pôde usufruir de sua beleza, quando o papa Alessandro VII comprou a biblioteca de Guidobaldo di Urbino.
O tradutor, Sylvio do Amaral, defende com energia e alguma ironia o trabalho de comparação entre a nova versão da "Comédia" e suas antecessoras. Exemplifica, por exemplo, com o critério "naturalizador" que fez com que se evitasse o verbo "embocar" (no original, da frase Or vo che tu mia sentenza nembocche). É dita no momento em que Virgílio pede a Dante que absorva a lição contida na opinião que vai externar, pedindo-lhe que a "emboque" - isto é, que a ponha na boca. O verbo foi evitado em várias traduções.
"Fizeram a reconstrução do texto em termos que se pautam sempre por louvável cuidado com a preservação da grandiosidade da obra", explicou Amaral. "Para isso, empregaram fórmulas que, refletindo a substância do verso com o atendimento do melhor estilo, fogem inteiramente do texto original, omitindo particularidades que ao estudioso importa entretanto conhecer, seja para fazer juízo próprio sobre o valor estético da expressão tida por extravagante, seja para avaliá-la como indício da evolução do gosto poético através dos tempos."
A edição da "Divina Comédia" pela Musa Editora recebeu o apoio de instituições de prestígio, como a Casa de Dante (ligada ao Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, do Consulado Italiano) e ainda do Colégio Dante Alighieri, de São Paulo.
Além do texto original, a edição será acompanhada de observações e notas de estudiosos importantes, como Paolo Costa e Brunone Bianchi, Vandelli, Fornaciari, Camerini, Vitali, Avancini, Dragone e Sapegno, além de evocarem passagens de Virgílio, Horácio, Ovídio, Estácio e outros.
A editora Ana Cândida Costa pretende publicar uma primeira edição do livro com 3 mil exemplares. Segundo ela, embora o direito de reprodução das gravuras seja atualmente de domínio público, a editora está entrando em contato com a Biblioteca do Vaticano para comunicar sobre a edição brasileira com as gravuras do Dante Urbinate.


