São Paulo, 17 (AE) - Havia 250 espectadores no Cinesesc, às 17 horas de quinta-feira, para ver um dos filmes menos conhecidos da retrospectiva do mestre documentarista holandês Joris Ivens (A Voz dos Rios). À meia-noite de sábado, também no Cinesesc, a sala estava quase cheia de gente que queria ver "Os Livros e a Noite", do argentino Tristan Bauer, sobre Jorge Luis Borges. Zita Carvalhosa, da associação Kineforum, que realiza o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, este ano em sua 5ª edição, usa esses exemplos para concluir que o evento já se consolidou.
"Como a Mostra Internacional de São Paulo, nosso evento já entrou para o calendário cultural da cidade; há espectadores que chegam a tirar férias para poder ver o maior número possível de filmes, em todos os horários". O crítico Amir Labaki, diretor do festival, cita números para confirmar o sucesso. "Este ano tivemos 13 mil espectadores, 20% a mais do que no ano passado". A grande festa do documentário no País - o maior evento do gênero na América Latina - terminou no domingo à noite.
O diretor Sílvio Tendler, integrante do júri internacional, subiu ao palco do Cinesesc para anunciar o vencedor entre os filmes estrangeiros: "Férias Prolongadas", do holandês Johan van der Keuren, uma espécie de road movie em que diversas histórias e personagens compõem um painel sobre a diversidade da vida na Terra, um painel tanto mais emocionante porque o diretor, que sofre de câncer, transformou o filme na própria razão de viver. Rebeca Kritsch, jornalista do jornal "O Estado de S.Paulo", integrante do júri nacional, também subiu ao palco do Cinesesc com o crítico e realizador Jean-Claude Bernardet, para anunciar o vencedor entre os concorrentes brasileiros - "Notícias de uma Guerra Particular"
de João Moreira Salles e Kátia Lund. Não foi a única vitória de "Notícias de uma Guerra Particular". O documentário que sobe o morro, no Rio, para descer ao inferno e retratar a violência que assola o País, também recebeu uma das duas menções do júri internacional (a outra: Kapo, de San Seton e Tor Ben Mayor, de Israel).
Na abertura da solenidade de encerramento do 5.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, Amir Labaki ofereceu a solidariedade do evento a João Moreira Salles, denunciado na mídia por sua ligação com o traficante Fernandinho Beira-Mar. "A solidariedade é importante, diante da opinião pública, que precisa saber que não sou um marginal; os prêmios também, afinal, sou documentarista e esse é o festival mais importante do gênero na América Latina", disse Salles.
Ele espera que o processo siga seu curso e não sofra interferências políticas que o transformem em bode expiatório. Sua co-diretora, Kátia Lund, no discurso de agradecimento do prêmio, disse que diante do quadro aparentemente sem solução mostrado em "Notícias de uma Guerra Particular", há três caminhos: fechar os olhos, o que ela e João tentaram fazer, mas não conseguiram; combater e aí a guerra aumenta; a solução, disse ela, é prevenir. É mais fácil do que recuperar.
Houve outro grande vencedor brasileiro na noite de domingo - "O Rapto do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas
de Paulo Caldas e Marcelo Luna. Ganhou o prêmio Centro Cultural Banco do Brasil como um dos três filmes preferidos do público, no Rio - os outros dois: "Os Carvoeiros", de Nigel Noble, e "Sobras em Obras", de Michel Favre. O CCBB também premiou "Maldito", de André Barcinski e Ivan Finotti, sobre o cineasta José Mojica Marins, que subiu ao palco e prometeu voltar a filmar, como melhor vídeo.
"O Rap" ganhou também o prêmio GNT de Renovação da Linguagem. Paulo Caldas transbordava alegria e entusiasmo. "Fizemos o filme para o público e o reconhecimento das platéias foi maravilhoso; ao mesmo tempo queremos contar nossas histórias de maneira diferente e aí o prêmio de renovação da linguagem não poderia ser mais estimulante para prosseguirmos com nosso trabalho".
Outros prêmios entregues no domingo: TV Cultura de Documentário Internacional (aquisição e exibição na rede educativa) - "O Último Documentário", dos alemães Daniel Sponsel e Jan Sebenning; TV Cultura de Documentário Brasileiro - "Walter Franco Muito Tudo", de Bel Bechara e Sandro Serpa; menção especial do júri da Cultura na competição brasileira - "Ao Sul da Paisagem: Paisagem e Memória", de Pascoal Samora.
O balanço de Amir Labaki é positivo: ele assinala o crescimento do número de documentários brasileiros como uma forma, enfim!, de reconhecimento do gênero no País; o aumento de público prova que há cada vez mais gente interessada em documentários. Finalmente, promete lutar pela liberação de "Di", de Gláuber Rocha, escolhido um dos dez maiores documentários brasileiros de todos os tempos, mas que não pôde ser exibido por causa de uma decisão judicial "que precisa ser revista", afirma.

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