"Nostradamus" sobe aos palcos do Rio no dia 9/9/99
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 30 (AE) - Uma das inúmeras interpretações das profecias de Nostradamus afirma que o mundo vai acabar em outubro. Antes disso, no dia 9 de setembro, uma data cabalística (9/9/99), estréia no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil o espetáculo "Nostradamus, o Prisioneiro do Futuro", de Doc Comparato, sob direção de Renato Borghi com o ator Cecil Thiré como protagonista. Claro que o dia exato da estréia não foi mera coincidência.
A escolha certamente não se deve a uma crença na magia dos números, porém pode ser creditada a um muito contemporâneo espírito de marketing. E ninguém da equipe de criação do espetáculo teme que a temporada termine abruptamente em outubro. "Os sonhos e os oráculos só são compreendidos no momento em que se cumprem", diz Comparato citando o dramaturgo francês Heliodore.
Para alguns estudiosos da vida do profeta, foi justamente uma profecia só compreendida no momento em que se cumpriu a responsável por detonar a fama de vidente do médico Michel de Nostredame, o Nostradamus (1503-1566). Em 1555 ele enviou à rainha Catarina de Médicis o primeiro volume de suas Centurias, 642 profecias na forma de versos de cem quadras. Numa delas estava escrito: "O leão novo sobrepujará o velho/ num campo marcial em duelo singular/ numa caixa dourada ele depositará o olho/ dois ferimentos de alguém e, então, morrerá cruelmente".
Quatro anos depois, o marido de Catarina, o rei Henrique II, comemorava o casamento de sua filha Elizabeth com três dias de torneios. Num duelo, foi duas vezes ferido pela lança de Montgomery, teve o olho vazado e morreu de infecção, depois de agonizar por sete dias. Só então Catarina de Médicis deu atenção àquela quadrinha. O fato é que uma das maiores dificuldades de interpretação da obra de Nostradamus reside em sua linguagem cifrada.
Para evitar problemas com a Inquisição, ele criou uma linguagem metafórica e ainda mesclou francês, provençal, latim, grego e até palavras em sânscrito. Tanto os céticos quanto os místicos creditam a essa algaravia a fama do profeta. Para os primeiros, todas podem ser interpretadas de acordo com o interesse do leitor, daí sua aparente infabilidade. Para os crédulos, a não concretização de qualquer uma delas se deve unicamente a incorreções em sua decifração.
Ao criar sua peça, Comparato não se preocupou em decifrá-las. Depois de uma intensa pesquisa, decidiu contar a história do homem Nostradamus com grande liberdade dramatúrgica, numa mistura de documentário e ficção. Assim, o público vai conhecer um pouco da vida do filho de judeus convertidos que nasceu em Saint-Rémy, na região de Provença, França, e se formou em medicina na Universidade de Montpelier, em 1525.
Logo se tornou conhecido pelo incessante combate à peste negra, que matou sua primeira mulher, Sabine, e seus dois filhos. Obteve bastante êxito no combate à doença receitando "práticas bizarras" como banhos e lavagem de alimentos que certamente soavam como mágica numa época em que a ligação entre assepsia e saúde era tênue e a ciência mal começava a substituir a magia em prestígio.
Nas biografias de Nostradamus há muitas histórias de vidência. Dizem, por exemplo, que em 1563 ele se prostou diante de um jovem monge criador de porcos dizendo: "Ajoelho-me diante de Vossa Santidade". O monge era Felice Peretti que 19 anos depois seria eleito papa Sixto V. Essas e muitas outras histórias estarão no palco, mas Comparato tomou a liberdade de embaralhar datas e fatos.
"Fiz uma grande pesquisa; depois tranquei tudo numa gaveta e engoli a chave, imprimindo minha visão pessoal ao personagem", brincou. "O fascinante nesse homem é o fato de ser um prisioneiro do tempo; ele vivia sob a maldição de navegar entre o presente e o futuro", comenta. Assim, o ator Cecil Thiré vai viver no palco um homem angustiado por um grande conflito interior, vítima do sofrimento causado pela previsão da morte de sua mulher, dos filhos e de catástrofes futuras sem, contudo, ter qualquer poder de interferência sobre o destino da humanidade.
A peça acompanha a trajetória do personagem dos 40 aos 70 anos. No primeiro ato ele descobre seu poder premonitório e tal revelação o deprime. "No segundo ele domina seu algoz, tornando-se mordaz e irônico", antecipa o autor. Essa será a segunda montagem do texto, que estreou em São Paulo em 1986 sob direção de Antônio Abujamra, com Antônio Fagundes. "Felizmente eu não vi a montagem paulistana", diz Borghi. Ele tem a responsabilidade de dirigir um elenco de 16 atores, entre eles Laura Cardoso, no papel da rainha Catarina, Tonico Pereira, como Julius, amigo de Nostradamus, e Jaime Periard, como intérprete do cardeal de Narbons, o inquisidor.


