Novamente a Sicília, de volta a nostalgia, ainda uma vez as lembranças. Conhecendo e ouvindo pessoalmente o diretor Giuseppe Tornatore, ninguém diz que é um ‘‘passadólogo’’, na definição irretocável de Nelson Rodrigues. Mas é, e convicto. À exceção da estripulia esotérica de ‘‘Uma Simples Formalidade’’, a curta filmografia não deixa dúvida: ‘‘Cinema Paradiso’’, ‘‘O Homem das Estrelas’’, ‘‘A Lenda do Pianista do Oceano’’. E como estes, o mais recente ‘‘Malena’’ (veja a programação de cinema na página 4) é igualmente prolixo: Tornatore abre em dimensão de romance um assunto que estaria bem contido e contado em embalagem reduzida.
Durante a Segunda Guerra Mundial (e lá estamos uma vez mais), a estonteante Malena (Monica Belucci) se instala na pequena cidade de Castelcuto, sul da Itália, depois que o marido partiu para o front. Sua beleza e ingenuidade logo a transformam no centro de luxuriante olhares masculinos e ressentidos comentários das mulheres. Renato Amoroso (!), jovem adolescente de 14 anos, cai de amores platônicos. O garoto (Giuseppe Sulfaro), alimenta sonhos a partir de romances cinematográficos e vai se converter na sombra secreta de Malena, ajudando a mulher a enfrentar a inveja, o desejo e a incompreensão populares.
Que os grandes autores têm obsessões, marcas de estilo e recorrência a temas, isto é notório. Mas os realmente talentosos sabem como reformular, ampliar e aprofundar essas buscas; outros, menos dotados, não sabem como levantar âncoras, e simplesmente terminam maquiando aqui e ali a própria face artística. No primeiro caso estaria - para ficar apenas com um exemplo peninsular - Federico Fellini de ‘‘Oito e Meio’’e ‘‘Amarcord’’. Mas ali onde o mestre tratava fixações sexuais masculinas com humor sem complacência e ao mesmo tempo com ternura, em Tornatore o olhar é sempre rotineiro, misógino, complacente e moralista. Tudo embalado em solenidade que acaba produzindo uma sensação contraditória, dividida entre a saturação do tantas vezes visto e do vazio de quem não tem novidades para contar.
A iniciação afetiva de jovens - sublimada ou levada à consequências previsíveis - já rendeu grandes, mágicos momentos no cinema. E pelo menos um deles ficou muito gravado no subconsciente de Tornatore, a ponto de ressurgir em ‘‘Malena’’ com grande fidelidade a pelo menos um modelo. Em ‘‘Houve Uma Vez Um Verão’’, obra-prima que Robert Mulligan dirigiu em 1971, o jovem Hermie (Gary Grimes) se apaixona pela deusa Jennifer O’Neal. O marido dela está na guerra. O garoto a observa de longe, se aproxima, presta pequenos favores à mulher solitária. Ela espera, abraça a fotografia do marido. Tudo muito, muito parecido com boa parte do que se vê em ‘‘Malena’’.
O filme, que perdeu cerca de 30 minutos nas cópias para os mercados americanos (Brasil inclusive: são 94 minutos contra versões européias de 105 e 120 minutos), oferece um retrato estereotipada da madonna italiana, fruto da beleza alucinante, da culpa e da energia, do orgulho e da submissão. Mas o que poderia traduzir ressaltar como efeito antropológico acaba, nas mãos limitadas de Tornatore, reduzido ao lugar comum do cartão postal fotografado com requinte pelo húngaro Lajos Koltai e pela trilha aqui burocrática de Ennio Morricone.

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