A utilização de planos longos, a depuração de luz e cor, os maneirismos de câmara. O estilo cinematográfico de Luiz Fernando Carvalho não é o suficiente para matar a saudade que Bete Mendes sente de um set de filmagens. A atriz afirma que está disposta a quebrar um jejum que já dura 16 anos, mas que está sendo obrigada a recusar convites por conta das frequentes viagens de O rei do gado. ‘‘Já tenho alguns projetos para 1997 mas, por enquanto, estão todos no papel’’, adianta.
Uma das sequências de seu último filme, ‘‘Eles Não Usam Black Tie’’, uma adaptação de Leon Hirszman para a peça de Gianfrancesco Guarnieri, está gravada na memória afetiva da atriz. Nela, Tião, um sindicalista vivido por Carlos Alberto Ricelli, discute com a namorada ao descobrir que ela, grávida, quase perdeu a criança. Bete, que interpretava Maria, conseguiu conter o choro durante toda a cena e manteve a exata medida da dor e da mágoa até o término da tomada sem cortes. ‘‘A cena toda foi muito difícil de fazer. Fiquei aliviada quando a cena terminou’’, reconhece.
A atriz só ameaça perder a serenidade habitual quando o assunto é o descaso do governo brasileiro em relação à produção cultural. ‘‘A expressão está desgastada mas o problema continua sendo o mesmo: a falta de vontade política’’, enfatiza.
Bete ressente-se de um profundo complexo de inferioridade que, enraizado na cultura brasileira, parece preferir o produto estrangeiro ao nacional. ‘‘A nossa música quando vai lá para fora deixa todo mundo encantado. Tenho certeza de que com o cinema vai acontecer a mesma coisa’’, conclui, esperançosa.

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