Paulo WolfgangVanda Freire: aulas falam sobre lundu, maxixe, samba, ópera, canção brasileira de um modo geral (popular a erudita) e até mesmo valsasAté a própria professora não acreditou quando viu a quantidade de alunos inscritos. ‘‘Pensei que fosse dar aulas para no máximo dez anos e agora estou com quase 50 alunos’’- diz, entre orgulho e espanto, a carioca Vanda Freire que, durante o 17º Festival de Música de Londrina, está ministrando o curso ‘‘História da Música Brasileira’’. Ao todo, 48 inscritos divididos em duas turmas - uma com aulas às segundas, quartas e sextas-feiras, das 9 às 11 horas; e outra às terças, quintas e sábados, das 14 às 16 horas.
Essa é a primeira vez que o curso é incluído na programação didática do festival. Não é, entretanto, a primeira vez que Vanda Freire faz parte do corpo docente do evento - no ano passado, e também neste, ela ministra o curso de ‘‘Apreciação Musical para Leigos’’.
Especificamente para o curso de ‘‘História da Música Brasileira’’, a professora está tomando como linha didática a história social da música, que abrange a trajetória da música dentro da sociedade, os diversos gêneros bem como eles circularam entre o século 18 e 20. São muitos o estilos abordados durante as aulas - lundu, maxixe, samba, ópera, canção brasileira de um modo geral (popular a erudita) e até mesmo valsas brasileiras.
Mas, como explica Vanda, o curso também vai abordar, mesmo que en passant, gêneros e movimentos mais contemporâneos como a Bossa Nova e rock brasileiro. Mas todo o conteúdo didático , garante ela, terá uma abordagem sociológica.
Na salas de aula, leigos e músicos em estágio de formação adiantado sentam-se lado a lado. Isso parece não ser problema para Vanda Freire. ‘‘Tenho que utilizar uma linguagem média que atenda a todos os alunos. Ou seja, não posso utilizar termos técnicos para não deixar o grupo de não-músicos desinteressados e também não posso utilizar uma linguagem banal para quem já é musico’’- informa Vanda.
O curso parece realmente estar agradando aos participantes. O professor de matemática Gilberto Tenani, de São José do Rio Preto (SP), admite que resolveu se inscrever no curso por simples curiosidade. ‘‘Eu gosto de todos os gêneros da música brasileira. Estou achando o curso ótimo porque está me dando um bom embasamento’’- diz ele. Detalhe: Gilberto não é músico e sequer toca algum instrumento.
De mais longe - para ser mais exato de Porto Velho (RO) - veio a estudante de música Raquel Carvalho Cabral que também está fazendo outros cursos oferecidos pelo Festival. ‘‘Como pesquisadora, a Vanda tem uma visão muito ampla da música brasileira’’- analisa.
Manuscritos na Internet Vanda Freire é professora da escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É também pesquisadora da história geral da música. Só sobre a música brasileira ela está há oito anos dissecando o assunto. Para isso, conta com um patrocínio do CNPQ. Seu material de pesquisa provém, principalmente, do arquivo da UFRJ, onde vasculha, manuseia e está organizando mais de 10 mil manuscritos musicais (entre eles, partituras musicais principalmente do século 19).
A professora informa que dentro de um ano, provavelmente, alguns desses manuscritos estarão à disposição na Internet. Isso será possível graças a um patrocínio da Fundação José Bonifácio, do Rio de Janeiro, que cedeu computadores e outros equipamentos tecnológicos. Outra novidade que a professora anuncia é a revisão musicológica que vem fazendo para a Funarte da ópera ‘‘A Noite do Castelo’’ - a primeira escrita em português por Carlos Gomes e que nunca foi editada.
Mas foi entre uma pesquisa e outra sobre música brasileira que Vanda Freire chegou à conclusão que pode derrubar a tese (ou senso comum) de que o nacionalismo musical (em outras palavras, a construção propriamente dita de uma identidade musical brasileira) teria como referência a Semana de 22. Para ela, esse nacionalismo é muito anterior - pelo menos no século 19.
Que a música brasileira é soberba e rica, todo mundo sabe ou pelo menos canta em prosa e verso. Mas daí a afirmar que existe uma autêntica musicalidade nacional é, de acordo com a professora, perigoso. ‘‘Em nenhum lugar do mundo há uma cultura musical única’’- afirma.

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