Nossa Linda Família explora desagregação familiar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de março de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 01 (AE) - Para os iniciados, "Sitcom - Nossa Linda Família", de François Ozon, já está sendo chamado de Festa de Família à francesa. A alusão é ao filme de Thomas Vinterberg, um dos signatários do Dogma 95 - aquele receituário nórdico em busca do cinema de autor perdido. Nos dois, o tema central é a desagregação familiar. No caso do dinamarquês, ela ocorre durante uma reunião em que os podres vão progressiva e alegremente sendo postos à luz do dia. Na versão francesa, é a presença de um curioso anjo exterminador que acaba por desencadear a inacreditável série de baixarias exposta aos olhos do espectador.
A história é a de uma tranquila família burguesa, vivendo em confortável mansão no interior da França. Pai, mãe, casal de filhos, empregada espanhola. Um dia, o pai resolve trazer um mascote para casa. Um inocente rato branco, que terá o poder de despertar a besta feroz que existe em cada um.
A idéia parece vagamente inspirada em "Teorema", um dos clássicos de Pier Paolo Pasolini. Neste, a desagregação familiar começa com a chegada de um estranho, Terence Stamp, que faz sexo com cada um dos membros da família até levá-la à destruição. Na trama imaginada por Ozon, o rato branco é menos um personagem que um pequeno elemento de estranheza. Um "outro" dentro da casa, que terá o poder de expor a verdade que há por debaixo da fina camada de verniz da civilidade.
Pulsões ferozes - O filme todo é informado por uma certa psicanálise. Ou seja, há a superfície visível, urbana, civilizada, polida; sob ela, as pulsões ferozes, sempre prontas para aflorar. A idéia de Ozon é que, de uma hora para outra, e sem nenhum motivo aparente, esse lado selvagem do ser humano pode vir à tona. Assim, depois que o singelo ratinho branco entra na casa, começam a acontecer coisas estranhas, como tentativas de suicídio, incestos etc.
Além da referência mais explícita a Pasolini, há também as óbvias citações surrealistas. As situações de Sitcom são levemente absurdas no começo da história, e, à medida que a trama se vai desenvolvendo, mergulham de vez no nonsense. É típico desse tipo de recurso que a ação flutue entre o trágico e o cômico. Primeiro, o riso da cena inusitada; depois o drama daquilo que subjaz ao que se descreve. Um passa ao outro sem transição - pelo menos no caso de um mestre como Luis Buñuel. No de Ozon, não se percebe traço dessa elegância. Ao contrário, tudo se vai encaminhando para a esfera do grotesco, para culminar numa solução trash que põe a perder o que poderia haver de mais interessante.
Há, claro, uma intenção crítica evidente no trabalho de Ozon. Cada vez mais, para um artista europeu, fica evidente o profundo mal-estar paralelo à aparente estabilidade social. Há na França um governo anfíbio, de coabitação entre um presidente de direita, Jacques Chirac, e um primeiro-ministro de esquerda, Lionel Jospin. Eles governam um país afluente, mas maltratado pela alta taxa de desemprego, imigração ilegal (e consequente racismo), ascensão da extrema-direita etc.
Ozon poderia ter flagrado essa malaise lá onde se expressa com mais intensidade - nas ruas de cidades grandes, como Paris, Marselha, Lyon. Preferiu ambientar seu drama cômico no cenário mais lírico da província, onde ele seria, por isso mesmo, mais surpreendente. Tudo, no começo parece encaminhar-se para a descrição de uma vida bucólica, assentada em valores estáveis, sólida. Mas é aí mesmo, nesse quadro idealizado que será encenada a tragédia da corrosão.
A pena é que o desenvolvimento das situações grotescas vá perdendo seu referencial crítico inicial e passe a alimentar-se de si mesmo. Vêem daí as acusações, não sem fundamento, de provocação gratuita que o filme vem recebendo. Essa autofagia conceitual é o que acaba por afastar Sitcom de suas fontes iniciais, como o cinema social de Pasolini e o surrealismo bem dosado de Buñuel.


