Nossa cultura foi para muitos
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 1996
Zeca Corrêa Leite<br> Sucursal de Curitiba 
O prefeito Rafael Greca, às vésperas de deixar o governo municipal, fez um balanço de seu trabalho na área da cultura. Eu vejo a minha trajetória nesse processo com indizível alegria, disse à Folha2. Compreendo que o que não se compartilha se perde, e que tendo eu sido eleito prefeito de Curitiba tinha que dividir toda a compreensão cultural que havia recebido ao longo da minha vida com a população de Curitiba.
Os quatro anos vividos na condução dos destinos do município deram-lhe condições de promover a cultura popular e popularizar ao extremo o processo cultural. Jamais houve na história de Curitiba coisa parecida, vangloria-se. Quem discordar do ufanismo do prefeito é convidado a encará-lo numa próxima eleição.
Desafio a concorrer qualquer próxima eleição comigo, quero ver se ganha. A minha política cultural reforçou a identidade cultural da cidade, ela tem uma auto-estima, se ama muito mais porque se conhece muito mais, afirma seguro de si. Há quatro anos, numa entrevista concedida a este caderno, Rafael Greca enfatizou o aspecto de que não se ama aquilo que não se conhece. Sua política cultural pendeu para esse lado, com as cartilhas e Faróis do Saber.
O fato de a cidade conhecer mais a si mesma, a sua história, a sua tradição provoca nas pessoas um sentimento de pertinência que é a sua melhor defesa. Tanto assim que as candidaturas postas contra nós, e que tinham por proposta desmoralizar nosso processo cultural, foram rotundamente destruídas nas urnas.
Os artistas de teatro, muito especialmente, reclamam da atual gestão os gordos patrocínios concedidos a estrelas como Paulo Autran e Fernanda Montenegro nas montagens de suas peças. O último foi Marco Nanini, que está fazendo sucesso com O Burguês Fidalgo. Rafael Greca de modo algum aceita as críticas. Diz ele que colocando tudo numa balança de justiça o prato pende para os curitibanos.
Investimos muito mais na valorização do artista local, na educação e formação do público do que nas grandes promoções nacionais. Mas as duas coisas têm que ser feitas, porque o processo cultural é um processo de trocas, expõe o prefeito. Quando se traz uma Fernanda Montenegro, um Paulo Autran, um José Carreras a gente também está investindo na formação cultural do povo de Curitiba como um todo.
Justificando esse todo Greca lembrou que em todos os eventos houve acesso aos mais humildes. Para o show de Roberto Carlos e o concerto de Carreras houve troca de ingressos por lixo. A nossa cultura foi para muitos. Procuramos fazer na escala de 1,5 milhão de habitantes da cidade. Não a cultura dos salões fechados, da Academia ou do vernissage para poucos, ele sustenta. Não se esquiva quando o assunto são os detratores:
- Normalmente todos os críticos são muito engraçados porque olham o mundo no horizonte do seu quarto, ou do seu bolso, o que é mais triste. Quando falam para os grandes jornais sobre a política cultural do município eles sempre reclamam do que eles pessoalmente não receberam. Aí eu me mato de rir.
Painéis e CDs O prefeito tem na ponta da língua as realizações feitas em sua gestão. Num só fôlego ele começa pelo desfile dos 300 anos da cidade - onde perto de 200 mil pessoas mostraram desde a primeira imagem de Nossa Senhora da Luz, até as mais variadas manifestações étnicas e de bairro - e vai terminar nos CDs dos corais Brasileirão, Brasileirinho, Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba, Camerata Antíqua, Orquestra do Conservatório de MPB e etc. Dá a ficha das aquarelas do século 19, adquiridas pela Prefeitura que trazem vistas da cidade antes do advento da fotografia.
Os livros Lições Curitibanas, os Faróis do Saber, a coleção Farol do Saber (reedição de obras raras, antes só encontradas nas mãos de colecionadores), os ônibus das linhas Turismo, Volta ao Mundo, Conhecimentos entram nesse rol. Rafael Greca atenta à Lei de Incentivo à Cultura, de autoria do então vereador Ângelo Vanhoni, que foi regulamentada no meu governo. Pela abertura que dei nessa área a Secretaria da Fazenda renunciou a R$ 10 milhões em impostos, que foram empregados na geração de produtos culturais que outro dia ocuparam dois salões do Memorial da Cidade com uma exposição.
O Memorial da Cidade vem a ser, segundo o prefeito, o símbolo do nosso governo, a obra mais importante de sua gestão. Essencial, ele diz, porque revoga o caráter provisório das manifestações culturais. Chega de cultura de Feira de Ciências do Colégio Estadual ou de flanelógrafo de professor. Agora é preciso uma cultura definitiva, nós já temos maturidade para investir numa política cultural essencial.
A pintura de Sérgio Ferro no teto e numa das paredes do prédio faz uma síntese da história paranaense, sem retratos de personagens históricos. Os construtores da história aparecem ali como homens do povo: são os ceifadores, os semeadores, garimpeiros, trabalhadores da erva-mate, madeireiros, imigrantes, urbanistas.
Retrata o sonho e o trabalho, o trabalho e o sonho, comenta Rafael Greca. Ele explica que a obra, um painel de quase 200 metros quadrados de pintura, colado sobre compensado marítimo, é arrematada por um medalhão que refere ao pensamento de Sêneca - o que não se compartilha se perde.
Poema de amor É de autoria de Rafael Greca o poema transformado em imagens, utilizado quase à exaustão na campanha política de Cássio Taniguchi, seu sucessor. Moro numa cidade que ama a rua/ que passa por muitos países/ e leva o Brasil inteiro no seu coração, diz o texto. Escrito a partir do mote de Drummond ele é o canto de amor do prefeito para a cidade que ele quer voltar a governar, conforme deixou claro na entrevista:
- Se eu governasse de novo - ou quando eu governar de novo - faria uma secretaria de Cultura e Ação Social juntas para revogar da cultura o ranço de coisa dos saciados.
Das realizações levadas a efeito nestes quatro anos, uma acabou não sendo finalizada - a cascata do Parque Tanguá. Levei a tubulação até o alto do barranco e morri na praia porque faltou dinheiro para comprar a bomba, lamenta Greca. Sua esperança está em Cássio Taniguchi. Ele vai concluir no próximo mês de janeiro, assegura.


