Fim de tarde de sexta-feira no centro de São Paulo: característico céu de chumbo, poluição, caos no trânsito. Uma pedinte aproxima-se do carro do escritor R. D. Bertozzi. Ele olha firmemente em seus olhos e, para seu espanto, o céu está ali refletido. Com aquela cor cinza, pesada, de chumbo. Nesse momento uma frase passou-lhe pela cabeça: ‘‘As dores do mundo estão nos olhos de cada pessoa. As esperanças também’’.
Estava surgindo aí o livro ‘‘Depois da Tempestade’’, que será lançado esta noite, às 19 horas, na sede da Editora Juruá, em Curitiba. O romance mexe com um tema no mínimo polêmico: a clonagem de Jesus Cristo. Com tantas dores na Terra, por que não Seu retorno para amenizar tanto desespero? ‘‘Foi essa indignação das misérias humanas que me fez escrever’’, conta.
A princípio Bertozzi planejava escrever um conto sobre a tragédia das grandes cidades. ‘‘A partir daí não parei mais, vinha idéia sobre idéia’’. Porém, logo depois, houve a revelação mundial da clonagem da ovelha Dolly. Foi assim que a temática se ampliou, e se antes o divino estava distante, agora poderia voltar em carne e osso, pelos caminhos da ciência.
Este é o primeiro livro que de R. D. Bertozzi, 28 anos, formado em Administração de Empresas, e profissional em marketing. Ele surge na literatura quebrando uma tradição de 30 anos de sua editora, conhecida nacionalmente pelas publicações jurídicas. É a primeira vez que a Juruá lança um romance.
O enredo é instigante, mas sozinho não teria forças para ganhar o interesse dos editores. O texto de Bertozzi com certeza foi decisivo para o interesse dos executivos. Denso, incisivo e ao mesmo tempo poético, tem a qualidade de manter o interesse do leitor. Em nada se parece com livro de estreante.
‘‘A grande surpresa é que eu não sabia que sabia escrever’’, diz Bertozzi. Quando criança era ‘‘péssimo’’ em português, apesar do gosto pela leitura, despertado aos 8 anos de idade. ‘‘Tive uma professora na quarta série que disse que o meu caso era único no universo - como eu conseguia conjugar três tempos de verbo na mesma frase? Como era possível fazer esse disparate?’, diverte-se.
O realismo fantástico de ‘‘Depois da Tempestade’’ não traz somente aventuras envoltas na ficção científica. ‘‘Meu livro é reflexivo’’, observa o escritor. ‘‘Ele pensa sobre o mundo, o apocalipse, as tragédias, os conflitos religiosos. O que coloco é a fusão entre religião e ciência’’.
R. D. Bertozzi critica os ‘‘bilhões de dólares que são desperdiçados em pesquisas para emagrecimento e cosméticos’’. Mas acredita que ‘‘na hora em que os cientistas passarem a ter inspiração religiosa’’, se colocarão às grandes causas, e passarão a clonar alimentos, como milho, arroz, feijão, o suficiente para matar a fome dos desvalidos. Isso, porém, só acontecerá ‘‘quando a humanidade estiver com outro paradigma de pensamento’’.
Foram dois anos de trabalho, e 53 livros pesquisados, para escrever as 282 páginas do romance. ‘‘Fiz pesquisas específicas para me sentir mais seguro’’, explica. Da lista constam desde ‘‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, de José Saramago, a obras de Chico Xavier e poemas de Walt Whitman.
Como o texto nasceu ao som de músicas de Enya, Radiohead, Kitaro, Fortuna, Jean Michel Jarre, Villa-Lobos, o autor achou por bem montar uma lista desses e de outros discos, como sugestão ao leitor. ‘‘Não consigo viver sem música’’, afirma Bertozzi.
Um segundo romance deverá ser escrito em breve, paralelamente à carreira do primeiro. O entusiasmo dos editores pelo livro é tanto que se planeja encontrar parceiros para traduzi-lo ao inglês e espanhol. R. D. Bertozzi fica na sua: ‘‘Espero que o leitor entenda minhas reflexões, pois particularmente acredito que a clonagem existe pela permissão de Deus. Ela vem para auxiliar na evolução do ser humano, não para atrasá-lo’’
Naturalmente a ética deverá permear as ações da ciência, comenta o escritor. Desde já ele imagina que alguns segmentos conservadores olharão de viés para o livro por colocar Jesus envolvido em experiências de laboratório. Explica que os personagens que assim o fazem, tentam o extremado gesto de fé. Mas o sangue recolhido na cruz e levado para os tubos de ensaio trará o Filho para um mundo desorientado neste final de século e milênio? Bertozzi não responde. A resposta está no livro.
• Depois da Tempestade - de R. D. Bertozzi. Lançamento hoje, às 19 horas, na Editora Juruá, Rua Marechal Hermes, 500, esquina com Augusto Severo, telefone (041) 353-3900.Kraw PenasR. D. Bertozzi: ‘‘Fiz pesquisas específicas para me sentir mais seguro’’Zeca Corrêa Leite

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