Nos tempos da Beat Generation
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de março de 2004
Viviane Kulczynski<br> Agência Estado 
São Francisco - Quando a geração beatnik tomou de assalto a cena cultural e literária dos Estados Unidos, vivia-se a paranóia da Guerra Fria e a institucionalização do ''american way of life''. Os anos eram os 50 e os ''ismos'' mais ouvidos retumbavam de macarthismo, comunismo e conservadorismo.
Rapazes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e Lawrence Ferlinghetti, entre outros, vieram definitivamente para desafinar o coro dos resignados, provocando não só o maior fenômeno cultural da segunda metade do século 20, mas semeando o solo para a contracultura dos anos 60 e início dos 70. Era um punhado de jovens criados sob a Grande Depressão, inconformados, rebeldes, ''malditos''. Eles deram forma ao primeiro movimento organizado é querer muito de contestação diante do mar de prosperidade do pós-guerra. Nascia a Beat Generation, a geração beatnik.
O termo surgiu e Kerouac morreu reivindicando sua autoria da corruptela do nome do satélite russo Sputnik com o termo inglês beat, de vários significados. Os beatniks rodaram o país de costa a costa (num roteiro que até hoje fãs do movimento refazem, de carro, trem, carona). Cruzaram a fronteira com o México. Pegaram a estrada recitando poemas, procurando uma consonância maior entre vida e obra artística. Foi assim que fizeram história e chegaram a São Francisco, na ensolarada Califórnia.
Na mala, carregavam escritos não ortodoxos de Arthur Rimbaud, William Blake, Franz Kafka, Friedrich Nietzsche , imagens difusas de dadaístas e surrealistas. Enfim, tudo o que simplesmente parecia não se ajustar às engrenagens dos EUA daqueles idos. Inquietos, marginais, aqueles jovens pretendiam mostrar seu desgosto com o status quo. Não queriam mudar o mundo, nem fazer a revolução. Não tinham soluções para seus próprios males. Quem dirá para os dos outros...
E São Francisco se tornou, então, uma espécie de porto para eles. E o refúgio ideal tinha endereço certo: o número 261 da Columbus Avenue, no bairro italianíssimo de North Beach. Foi ali que Lawrence Ferlinghetti (hoje com 84 anos) criaria a livraria City Lights Books, em 1953. Embora frequentassem os bares e cafés da região e escrevessem sobre seus desencantos, rebeldia e ira contra a complacência dos americanos, Kerouac, Ginsberg e sua turma não perdiam a oportunidade de correr para lá. Ferlinghetti mesmo se envolveu em algumas confusões em nome daqueles que ajudou a lançar.
Outros tantos pontos da cidade carregariam as marcas dessa geração. O Vesuvio Café, que assistiu a tantas noitadas etílicas da rapaziada... A Six Gallery, palco de leituras poéticas memoráveis... As casas noturnas, embaladas pelo bebop de Charlie Parker... E as galerias de arte, que levavam às paredes uma analogia das imagens oníricas e surreais que pulavam dos escritos daqueles rapazes, como os borrões sobre borrões de puro expressionismo abstrato de Jackson Pollock...
Se a linguagem é algo inseparável do mundo, se é nela e através dela que o mundo se constitui, pode-se dizer que poucos escritores americanos levaram esse fato a tal extremo quanto Jack Kerouac. Seu modelo ''espontâneo'' e não linear de escrita, cheio de frases em movimento, o tornaram sinônimo incontestável de tudo o que a geração beatnik representou.
Para se ter uma idéia, o ''rei dos beats'' escreveu ''On the Road'' (Pé na Estrada, de 1957) num rolo de papel com 34 metros de comprimento, ao longo de três semanas, permanentemente abastecido com um coquetel de café com benzedrina. Era a confirmação daquilo que ele mesmo definiu de sua personalidade: ''estranho e solitário; caótico, místico e louco''. Um ícone da mais efervescente época que a Califórnia, São Francisco e North Beach já viveram.
(*) Viagem feita a convite da American Airlines e do San Francisco Convention & Visitors Bureau


