"Nós Que aqui Estamos..." abre 27ª edição do Festival de Gramado, com sucesso
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segunda-feira, 09 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio Enviado Especial 
Gramado, RS, 10 (AE) - Como era de se esperar, o documentário "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos" fez o maior sucesso na abertura da 27.ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Um documentário fake, que mistura personagens reais com de ficção, e tenta dar conta deste imbróglio moral e político que foi o século 20. Seu autor, Marcelo Masagão, trabalha com imagens alheias, combina-as com inteligência e embala-as na hipnótica trilha sonora de Wim Mertens. Tem conseguido, assim, sensibilizar platéias e ganhar os festivais por onde passa. Já venceu no Recife e no Festival de Documentários de São Paulo.
O outro longa-metragem da noite, "Diario para un Cuento", de Jana Bokova (Argentina) também não decepcionou. Trata-se de uma bonita, sensível adaptação do relato homônimo de Julio Cortázar, que está no livro "Fora de Hora". Quando "Diario para un Cuento" começou, mais de dois terços da platéia já haviam debandado. Não era para menos. A programação, composta de dois longas-metragens e três curtas, tinha início previsto para as 19h30. Houve mais de hora e meia de atraso. Além disso, a dupla de apresentadores esmerou-se em declamar textos longos e burocráticos, homenageando políticos, notáveis da cidade e do Estado, artistas presentes (poucos, pelo menos até agora), etc. Enfim, um festival de platitudes, que poderia ter sido evitado com um mínimo de espírito de síntese.
Mas, o fato é que, sob contenção de custos, Gramado abriu com a casa apenas parcialmente cheia. A principal presença política foi a do governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT). As atrizes Maitê Proença e Vera Zimmerman emprestaram seu charme à noite de abertura. Mas o encanto das beldades foi de longe insuficiente para compensar o tédio da apresentação. É pena que relativamente pouca gente tenha ficado para ver "Diario para un Cuento". Sua diretora é checa, viveu na França
nos Estados Unidos e atualmente mora na Inglaterra. É apaixonada pelo trabalho de Cortázar e pela cultura argentina. Aliás, o próprio Cortázar cumpriu um destino internacional, como Jana. Nasceu na Bélgica, foi criado na Argentina, exilou-se voluntariamente em Paris, onde passou boa parte da vida e morreu. "Diario para un Cuento" respira essa atmosfera rica das nacionalidades múltiplas.
A ação passa-se no cais do porto, em Buenos Aires. Elias Dennis (Germán Palacios) é um alter ego de Cortázar quando moço. Ganha a vida precariamente como tradutor enquanto espera oportunidade para publicar seus primeiros textos de ficção. A época é o início dos anos 50. Evita Perón está doente e irá morrer em breve. Tudo respira melancolia, embora haja um clima de festa decadente lá onde o escritor em formação dá seus primeiros passos. Ele é sócio de um bon vivant (o ótimo Hector Alterio) e este o apresenta às prostitutas que exercem o métier em um cabaré da vizinhança.
Dennis passa a escrever cartas para as moças. Poliglota (como Cortázar o era), pode traduzir as cartas de amor das garotas para seus amantes do mundo inteiro. Não deixa de ser um belo aprendizado para um artista quando jovem. Mas, além disso, Dennis apaixona-se por uma delas (interpretada pela beldade espanhola Selke), que, infelizmente para ele, tem outros planos. Enfim, um bonito trabalho sobre o aprendizado de um escritor, de como ele tenta articular o plano da existência vivida com o da ficção, que não passa de uma reflexão sobre a vida. "Diario para un Cuento" se ressente, aqui e ali, por uma argentinidade um tanto forçada, mas ainda assim é cheio de clima, mistério e muita música boa. Um tango feroz. Curtas - No capítulo curtas-metragens, uma boa surpresa e outra decepção. O escolhido para abrir o festival, "A Lua", não teria condições para estar em Gramado. É filme escolar. O outro, de nome quilométrico, "Do Dia em Que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro de Tia Ciata Mudando o Rumo da Nossa História", recria o tempo da invenção do samba de maneira original e debochada. O terceiro, "Amassa Que Elas Gostam", fez o sucesso de sempre. É velho conhecido de quem frequenta festivais.
A mostra competitiva em Gramado prossegue amanhã (11) com dois longas-metragens de peso, o nacional "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, e o espanhol "Os Amantes do Círculo Polar", de Julio Medem. Espera-se que o texto de apresentação não transforme uma noitada que tem tudo para ser boa em outro exercício de tédio.


