NOS PASSOS DE UM MESTRE
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Entre as pilhas de compositores injustiçados deste País está Anacleto de Medeiros (1866-1907). Dono de uma obra onde constam belíssimas canções, teve uma delas Yara usada por Villa-Lobos na construção do Choros nº 10. Villa, porém, manteve um austero silêncio e só viria a citar a fonte muito tempo depois, como sendo uma homenagem ao autor quando a situação estava insustentável.
Na contramão do esquecimento está a gravadora Kuarup que acaba de lançar Sempre Anacleto, impecável CD com o Art Metal Quinteto & Banda de Câmara Anacleto de Medeiros. A alta qualidade do trabalho apóia-se nos arranjos de Vicente Ribeiro. Das 13 faixas, apenas uma não pertence ao compositor a inédita Cecy, escrita por Chiquinha Gonzaga numa homenagem ao maestro.
Mesmo tendo sido gravado por dezesseis músicos um quinteto de metais e uma banda de câmara o disco aproxima-se muito do som das bandas. A busca dessa sonoridade é proposital Medeiros comandava a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, e sob sua batuta trocou a dureza formal que até então caracterizava essas formações, para dar-lhe beleza e sensibilidade. Enquanto pôde fundou e regeu diversas bandas.
Filho de escrava liberta, Anacleto de Medeiros nasceu a 13 de julho de 1866. Protegido pelo padrinho, dr. Pinheiro Freire, ingressou como aprendiz no Arsenal de Guerra do Rio. Foi aí que deu os primeiros passos na música. Extinto o quadro de internos do Arsenal, Medeiros foi para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo. Aproveitou para fundar o Clube Musical Guttenberg. Em 1884 matriculou-se no Conservatório Imperial de Música. Dois anos depois recebia o diploma de professor de clarineta.
Com o tempo passou a tocar praticamente todos os instrumentos de sopro. Corre uma história de que quando chegou o material para a banda do Corpo de Bombeiros de Humaitá, ele próprio experimentou-os um a um. Diz-se que o sax-soprano era seu predileto e a tuba era executada com perfeição. Como compositor, Anacleto de Medeiros foi além da regência das bandas escreveu valsas, polcas, dobrados, xotes, e ainda cantos sacros, missas e um Te-Deum.
Como maestro foi um inovador não só na quebra dos velhos padrões, como precursor do disco no Brasil. Com a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, deixou registros já no início do século na Casa Edison como Terna Saudade e Três Estrelinhas. Estas faixas estão no CD do Art Metal Quinteto, ao lado de Yara, Cabeça de Porco, Avenida e Pavilhão Brasileiro (estas duas feitas especialmente o Corpo de Bombeiros), Medrosa, Santinha, Implorando.
Como costuma acontecer na música, as releituras e adaptações acabam por alterar e descaracterizar as canções originais. Com Anacleto de Medeiros não poderia ser diferente. Pouco depois de sua morte, a polca Três Estrelinhas perdia o ritmo vivo para dar lugar a uma canção com letra de Catulo da Paixão Cearense. Até o título mudou-se para O que Tu És. O novo andamento iria influenciar em todas as gravações instrumentais posteriores, segundo o estudioso Ary Vasconcelos.
O xote Iara que Villa-Lobos utilizou na construção do Choro nº 10 , gravado por volta de 1905, também ganhou letra de Catulo da Paixão Cearense, e novamente se transformou em canção de sucesso, Rasga o Coração. Êxito comercial para o poeta, prejuízo artístico para o compositor, pois instrumentalmente a peça perdeu muito de sua beleza.
Outras contribuições de Catulo, alterando os ritmos e mudando os títulos das páginas originais, são o tango Os Boêmios, transformado na cançoneta O Boêmio, o xote Implorando que virou a canção Palma de Martírio; a valsa Terna Saudade rebatizada como sendo a canção Por um Beijo.
Essas interferências seriam incorporadas à obra de Anacleto e durante décadas o que se ouviria era a visão de terceiros, menos aquilo que realmente constava da partitura original. A recuperação da sua música tal qual foi criada é uma proposta do Art Metal Quinteto e dos convidados que formaram a Banda de Câmara.
Repete-se com este lançamento o cuidado havido em 1981 com o LP número quatro da série Evocação, do Estúdio Eldorado, que tinha o mesmo propósito arqueológico da pesquisa, com arranjos e regências de Rogério Duprat. Foi o primeiro LP dedicado ao compositor carioca, considerado um dos fundadores da moderna música popular brasileira, e um dos seus quatro pilares, como considerava Radamés Gnattali para ele os outros três eram Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha.
Coincidentemente, também na Kuarup Anacleto é o quarto da série Sempre, que traz as obras de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Ernesto Nazareth. Os discos podem ser adquiridos através do site www.kuarup.com.br; pelo e-mail kuarupñkuarup.com.br; pelo telefone (21) 220-1623 ou (21) 220-0494. O CD custa R$ 15,00 e o frete é grátis.A gravadora Kuarup resgata, num CD impecável, composições de Anacleto de Medeiros considerado um dos pilares da moderna música brasileira
ReproduçãoAnacleto de Medeiros teve uma de suas músicas utilizada por Villa-Lobos na construção de Choros nº10. Villa só citou a fonte muito tempo depoisReproduçãoUma das faixas é uma homenagem de Chiquinha Gonzaga a Anacleto de Medeiros





