Auto é uma composição dramática originária da Idade Média, com personagens alegóricos, rodeados de santos e demônios, que se caracteriza pela simplicidade da construção, ingenuidade da linguagem, intenção moralizante, podendo comportar elementos cômicos e jocosos.
Na estrutura dramatúrgica de Ariano Suassuna, há vestígios também de peças tradicionais da alta Idade Média (século 16). Numa história aparentada do profano, o herói em apertos apela para Nossa Senhora, que comparece e o salva, tanto no plano espiritual como temporal. No DNA teatral, encontram-se genes dos autos de Gil Vicente, do teatro espanhol do século 17. Portanto, a dramaturgia de Suassuna fala o mesmo idioma dos fundadores da cultura brasileira. A intertextualidade pode ser detectada em sua obra, pois ‘‘O Auto da Compadecida’’ nasceu da maceração de três folhetos de cordel: ‘‘O enterro do Cachorro’’, ‘‘O Cavalo que Defecava Dinheiro’’ e ‘‘O Castigo da Soberba’’.
Na análise do crítico Sábato Magaldi, Suassuna alia o espontâneo e o elaborado, o popular ao erudito, o regional ao universal. Já Décio de Almeida Prado analisa que o sertanejo de Suassuna vive ao mesmo tempo em estado de fome e estado de graça poética. A graça da fala, o senso satírico, o dom de invenção verbal, a espontaneidade são elementos presentes nas 14 peças do escritor.
Suassuna prefere a seiva da arte popular. Sua literatura cultua raízes. Para ele, toda arte universal é primeiramente local. Mentor do Movimento Armorial na década de 70, tem como obsessão buscar as raízes populares da cultura brasileira para chegar a uma arte erudita. Esse movimento propõe a defesa da estética nacional-popular e rejeita a contaminação com o que vem de fora. Com isso, transformou-se numa espécie de guardião da tradição nacional, ganhando inimigos ferrenhos.
Suassuna rega o xaxim da polêmica, alfinetando principalmente aqueles que maculam a bandeira da cultura brasileira. De sua catapulta, atira em figuras como Caetano Veloso. ‘‘O tropicalismo é a nossa versão da Disneylândia, o que o Caetano diz vale os abacaxis da Carmem Miranda’’. A visão católica de paraíso exerce grande influência na Compadecida.
‘‘O Auto da Compadecida’’ é um clássico renovável. Os 16 personagens oferecem uma grande oportunidade para atores extravasarem o lado farsesco. Suassuna se utiliza em ‘‘O Auto...’’ de um metateatro. Os atores entram num picadeiro de circo, tendo um palhaço como apresentador da trama. Na comunidade estranha e agitada de ‘‘O Auto...’’, os impulsos coletivos profundos são reconhecidos. Em meio aos malandros da história, a Lei de Gerson sertaneja – de levar vantagem em tudo – impera, mas não vence. Quem leva vantagem é o espírito de vitória do fraco sobre o forte, da verdade sobre a mentira.
Há também que ressaltar a crítica social que atravessa o texto em vários momentos. ‘‘Eu, às vezes, chego a pensar que só quem morre completamente é pobre’’, diz Chicó. Outra história paralela recorrente na peça se refere à exploração da mão-de-obra, o padeiro sugando as forças de João Grilo. ‘‘Três dias passei em cima de uma cama, tremendo de febre. Mandava pedir socorro a ela e a você e nada’’, diz o empregado. A Compadecida retrata também a fé inabalável do nordestino, ancorada na crença de que todas as dificuldades serão suprimidas num plano superior.
Nesse clássico, emerge aquilo que Suassuna preservou de melhor na unidade cultural forte e completa que é o nordeste, o ritmo e a musicalidade da linguagem. João Grilo salta à frente do panorama dramatúrgico brasileiro. Arlequim nordestino, astuto, malicioso e inventivo, vence as adversidades pela inteligência matreira. Apesar de desnutrido, Grilo é um amarelo hiperativo. Uma espécie de Peter Pan, pueril e assexuado ‘‘...de besta eu tenho a cara’’.(F.F.)

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