Júlio Gama
Agência Estado
Perova, Canoinha e Ximbó, os três botes infláveis com 11 tripulantes que estão refazendo a Expedição Langsdorff, a maior incursão fluvial já realizada no País, entre 1821 e 1829, começaram a segunda de um total de três fases da viagem, mais perigosa à medida que avançam para o Norte. A equipe da produtora Grifa Cinematográfica partiu no dia 16 de Porto Feliz, em São Paulo, cruzou 12 cidades pelas hidrovias Tietê-Paraná e Paraná-Paraguai e chegou a Mato Grosso, de onde parte, nesta semana, para os trechos mais arriscados pelos rios Juruena, Tapajós e Mundurucus até Santarém, última das 52 cidades que a equipe terá percorrido num total de 1.800 quilômetros ao longo de 28 dias.
A viagem resultará no documentário ‘‘Expedição Langsdorff’’, de 52 minutos, filmado em 16 mm, co-produzido pelo canal Discovery e com patrocínio da Petrobrás. O Discovery pretende exibi-lo em cerca de cem países pelos cinco continentes como parte das comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil. No País, o documentário deverá ir ao ar em 22 de abril. Nesse mesmo período deve ser lançado um livro com textos, fotos e desenhos com as impressões dos novos viajantes.
O objetivo do documentário, ao refazer a expedição comandada por George Heinrich von Langsdorff, o Barão de Langsdorff, que, apesar de alemão, era cônsul russo no Brasil, é comparar as mudanças ocorridas na fauna, na flora, nas paisagens e, principalmente, revelar o impacto do tempo e da presença do branco sobre as tribos de índios registradas pelos artistas da primeira expedição, há 174 anos.
Na semana passada, uma equipe de jornalistas foi ao encontro dos aventureiros. O ponto marcado foi um hotel na cidade de Porto Jofre, em Mato Grosso, ao fim dos 145 quilômetros da rodovia Transpantaneira. Do aeroporto de Cuiabá são 245 quilômetros, primeiro pela BR-040 (Cuiabá-Porto Velho), depois pela BR-145, pegando um desvio para Poconé e, só então, chega-se à Transpantaneira.
Naquele ponto, pode-se dizer, tem início uma aventura para quem apenas procurava os aventureiros. As vans carregadas de passageiros e bagagens têm de cruzar 122 pontes e alguns desvios pelo mato. Para cruzar algumas dessas pontes não basta respirar fundo e rezar; às vezes é preciso sair do carro, arrumar as tábuas e sinalizar o caminho exato para o motorista. Embaixo, nos pântanos, jacarés e mais jacarés. Esses 145 quilômetros de estrada de chão demoram 7 horas para ser cumpridos. Chega-se, finalmente, a Porto Jofre, de onde só se segue de barco.
Ali, hospedados num barco-hotel estão o diretor do documentário e um dos donos da Grifa, Maurício Dias, o roteirista inglês Steve Bowles e uma trupe de oito técnicos e produtores, além da artista plástica Adriana Florence. Adriana, de 31 anos, é tataraneta do francês Hercules Florence, um dos artistas franceses que participaram da expedição original, ao lado de Adrien Taunay e Johan Moritz Rugendas.
A tataraneta Adriana é brasileira e foi localizada pelo roteirista Bowles numa das vezes em que pesquisou o nome Florence na Internet. Para sua surpresa, apareceu Adriana, artista como o tataravô, que mantinha um ateliê a poucas quadras da produtora. ‘‘Adriana era a motivação que faltava ao projeto’’, explica Bowles. ‘‘Precisava de alguém que tivesse a ver com a história.’’
Desde criança, Adriana ouvia histórias de Hercules Florence, contadas pela neta do artista, sua avó. Florence casou-se com Maria Angélica, de apenas 13 anos, filha de um fazendeiro brasileiro que deu pouso à expedição de Langsdorff. ‘‘Até hoje minha família guarda trabalhos feitos por Florence no Brasil’’, conta Adriana. ‘‘O diário de viagens dele está com uma prima do meu pai.’’
Há três anos, Adriana desenvolve o projeto ‘‘Todas as Tribos’’, que a leva a organizar pequenas viagens inspiradas no roteiro da Expedição Langsdorff. No ano passado, ela passou 40 dias no meio dos índios xavantes, em Mato Grosso.
A idéia da viagem saiu da cabeça de Paulo Werner, um patologista apaixonado pelo mar que há três meses foi nomeado diretor do Museu Nacional do Mar de Santa Catarina, em São Francisco do Sul.
Werner, especialista em preparar cartas de navegação, foi consultado pelo diretor Maurício Dias sobre a possibilidade de percorrer os principais rios brasileiros que formam a maior bacia hidrográfica do mundo (são 6 mil quilômetros de rios). ‘‘Eu disse que essa viagem já havia sido feita e falei da Expedição Langsdorff’’, conta Werner, que também está recolhendo material para o acervo do Museu Nacional do Mar.
Ao fim dos trechos brasileiros, uma parte da equipe da Grifa segue em janeiro para a França, Alemanha e Rússia. Na França e na Alemanha eles vão conversar com parentes de Langsdorff e pretendem conseguir imagens de desenhos originais e inéditos do navegador.
Na Rússia encontra-se boa parte do material coletado na expedição original: diários de viagens com mais de mil páginas manuscritas, cerca de 300 desenhos, observações curiosas e precisas sobre fauna, flora e indígenas.
Para proteger-se dos pernilongos vorazes, já que os repelentes não dão conta, os integrantes da equipe estão tomando diariamente comprimidos de complexo B, que, segundo explicam, afastam os mosquitos. Todos se vacinaram contra hepatite e febre amarela. Além de roupas leves e do pesado equipamento de viagem, levam um equipamento de localização na selva e um telefone celular Iridium, cujo sinal chega ao meio da selva.
Se tivesse como comunicar-se durante as pesquisas, o diretor teria abreviado o que foi um dos maiores sustos de sua vida. A pequena lancha de alumínio em que viajava com um dos produtores, Luiz Oliveira, e dois mateiros, afundou depois de bater numa rocha no Rio Juruena, em Salto Augusto, na divisa de Mato Grosso e Pará. ‘‘Era o primeiro de um total de sete dias de viagens pela selva e, portanto, ninguém daria falta da gente na primeira semana’’, conta Dias.
Depois de dois dias de caminhadas, eles se dividiram. Dias e Oliveira ficaram num acampamento abandonado e os mateiros seguiram à procura de socorro. Ao todo, andaram 200 quilômetros. Comeram caldo de um único peixe que conseguiram pegar e foram atacados por pernilongos. Oliveira emagreceu seis quilos.
Com uma câmera digital que conseguiram salvar, registraram parte da agonia e do desespero durante as duas horas em que durou bateria. A história deve virar um filme dentro de alguns meses. Em alguns momentos, Oliveira grita e xinga à beira de uma crise de nervos. Não foi à toa que Langsdorff enlouqueceu ao fim de sua viagem de oito anos.Grupo refaz a expedição que percorreu, há 174 anos, 1.800 quilômetros de rios brasileiros para transformá-la em documentário
ReproduçãoA viagem de Langsdorff registrou o interior de um País ainda pouco exploradoReproduçãoReproduçãoGeorge Heinrich von Langsdorff enlouqueceu ao fim da viagem

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