A imagem de Franz Kafka perdura, tênue, mas insistente, na paisagem da Praga de hoje. Primeiro, e é inevitável, ela se guarda no número 22 da Rua dos Alquimistas, já nas dependências do fabuloso Castelo Hradcany, o mais célebre da República Checa, num domicílio minúsculo que o escritor alugou em 1916 em busca de um pouco de silêncio. Na pequena casa, a menor da rua, que se resume a dois cômodos além de uma minúscula cave no subsolo, Kafka escreveu os relatos de ‘‘Um Médico Rural’’.
A indústria do turismo transformou a Rua dos Alquimistas, que ao longo dos séculos teve sua história associada a lendas esotéricas, num centro de peregrinação e o número 22, a casa de Kafka, numa loja em que se vende a memória do escritor - desde seus livros, suas fotografias, estudos sobre sua obra, até canetas, lenços, cadernos, camisetas, objetos vulgares adornados por seu retrato. É um local de veneração: os turistas se enfileiram à porta de entrada, abrindo apenas uma brecha para que o número 22 apareça, e tiram fotografias. Kafka a alugou por 20 coroas mensais, para lhe servir de estúdio. Sozinho, ali passava as horas trabalhando.
Nos intervalos, gostava de caminhar lentamente pela Rua dos Alquimistas (que também é chamada de Rua do Ouro), em especial quando ela estava coberta pela neve. Hoje, sempre apressados, os turistas a atravessam, depois de comprar uma ou duas coisas, e às vezes Kafka parece improvável e distante.
Construído no ano 1000 e várias vezes reconstruído, o castelo Hradcany é, na verdade, uma imensa cidadela que inclui prédios e monumentos civis, religiosos e administrativos. Pode ser avistado de toda a Praga - embora o melhor panorama se divise quando se atravessa a Ponte Carlos, a mais bela das pontes que cruzam o Moldava, que leva do centro da cidade velha diretamente ao morro do castelo. É um espaço luminoso, agitado por visitantes vindos do exterior, em que se descortina uma visão espetacular da capital checa, por ambulantes, músicos e mercadores, o oposto, portanto, do obscuro e inacessível castelo de seu célebre romance.
A imagem de Kafka está fortemente espalhada, ainda, pelo Bairro Judeu, em particular na zona que cerca a Velha Sinagoga. Foi em torno dessa Praga hebraica, famosa por seu sombrio cemitério e pelo palácio em cujas paredes se estampa um relógio cujos ponteiros giram em sentido contrário (isto é, um relógio ameaçador, que não conta o tempo que passou, mas o tempo que falta passar), foi ali que Kafka começou a escrever ‘‘América’’ e também ‘‘A Metamorfose’’.
Com seu amigo Max Brod, o escritor frequentou muitos cafés, como o da Casa da Municipalidade, até hoje um dos mais belos de Praga. No Café Louvre, na Rua Národní, novamente sua lembrança pode ser evocada. Ali se reunia um conhecido círculo filosófico frequentado não só por ele e Brod, mas também por intelectuais como Hugo Bergmann e Felix Weltsch, no qual se estudavam as idéias do filósofo Franz Brentano. Nas mesas do Louvre, durante um difícil período, Brod e Kafka tiveram seu mais ríspido estremecimento.
O interesse pela filosofia também o levou não a outro café, mas à casa de Berta Fanta, mais conhecida como Casa do Unicórnio, na praça da cidade velha, onde se lia Kant e Hegel. Entre os amigos de Berta, o interesse pela filosofia se mesclava com uma curiosidade não menos intensa pelo ocultismo e, em particular, pelas idéias de Helena Blavatsky. Nesse aspecto Kafka era, entre todos, sempre o mais cético.
A figura de Franz Kafka persiste, ainda, no feio prédio neobarroco dos Seguros Gerais, no número 19 da praça de Wenceslao, onde ele começou a servir em 1907. Trabalhava das 8 da manhã às 8 e meia da noite, só tinha sete dias de férias por ano e ganhava apenas 80 coroas mensais. No ano seguinte, para sua sorte, conseguiu ser transferido para o Departamento de Seguros e Acidentes de Trabalho, onde passou longas e aborrecidas horas como funcionário auxiliar, até se aposentar em 1920. Ali, entre pilhas de processos, carimbos e arquivos, e enquanto sonhava com a vida em países remotos, ele arquitetou as primeiras idéias de ‘‘O Processo’’. Já levava, então, uma vida mais livre, pois trabalhava apenas até as 2 e meia da tarde. Depois do expediente, saía para caminhar e quase sempre podia ser visto atravessando a Ponte Carlos que, erguida sobre 16 arcos, está decorada por imagens magníficas de santos menonitas e até hoje é o coração de Praga.

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