NOS PASSOS DE ANITA
Jackeline Seglin
De Curitiba
O ano é 1849. Numa manhã quente e abafada do mês de agosto, crianças brincam num pasto na região de Ravenna, na Itália. De repente, o susto: um cão descobre uma mão de mulher que emergia da areia escura. Era o corpo de Ana Maria de Jesus Ribeiro - a heroína brasileira Anita Garibaldi, companheira do guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi.
Mistérios e lacunas da curta e movimentada trajetória dessa catarinense que teria vivido até 28 anos de idade permanecem até os dias de hoje. Nos 150 anos de sua morte (completados no dia 4 de agosto), a história é relembrada. O jornalista Paulo Markun acaba de lançar o livro Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira, um registro da dimensão histórica desta personagem.
A obra foi apresentada oficialmente no dia 3, em Brasília, como primeiro evento oficial em comemoração aos 500 anos do Brasil. Agora, o autor vai percorrer 40 cidades brasileiras para divulgar o livro. Hoje é a vez da capital paranaense. Paulo Markun estará no Memorial de Curitiba para apresentar o seu trabalho.
Anita era um nome que estava na minha cabeça, mas eu sabia apenas que ela era a Heroína de Dois Mundos, tinha lutado na Itália ao lado do Garibaldi e mais nada. Ao investigar, me surpreendi com os detalhes, afirma o escritor, que há um ano começou a pesquisar a história.
Anita casou-se aos 14 anos, com um sapateiro. Levava um vida simples de moça do interior, até que, aos 18 anos, conheceu e se apaixonou por Giuseppe Garibaldi. Largou tudo e foi embora com ele. Na opinião do jornalista, Anita era uma mulher absolutamente normal e comum, que pelas suas atitudes tornou-se alguém excepcional do dia para a noite, demonstrando uma enorme habilidade política.
Ao lado do herói italiano, ela lutou no Brasil, Uruguai e Itália por um ideal político. Participou da Revolta dos Farrapos (1835-1845), rebelião ocorrida no sul do Brasil, lutou na Grande Guerra do Uruguai contra a Argentina e pela unificação da Itália - para onde partiu no ano de 1847.
O maior desafio de Paulo Markun foi reconstituir a história sem invadir o terreno das ficção, entretanto, de um modo interessante para o grande público. O grande mistério que abre o livro do jornalista é a morte de Anita Garibaldi. Como teria ocorrido? Por doença - ou assassinato? Entre as várias versões sobre o caso, a mais polêmica é a que traz o próprio Garibaldi como suspeito do crime.
No decorrer do livro, Markun apresenta informações na tentativa de situar o leitor no momento político, cultural, social e econômico da época. Mas somente nas páginas finais o crime é analisado. Sobre o mistério, Paulo Markun diz existir uma documentação jurídica consistente que reforça o argumento de Garibaldi de que ela teria morrido de febre. Mas durante muito tempo persistiu na Itália a possibilidade de estrangulamento. São armadilhas que a história prega. Se tem gente que acredita no fim do mundo, porque não acreditar nas outras versões?.
Para garimpar as informações, Markun se deparou com dificuldades. Uma delas era a falta de informações sobre Anita. Embora o período final de sua vida tenha sido muito comentado, até os 18 anos não existia quase nada. O Brasil trata a história com um certo desprezo, critica. Em Laguna, as atas do cartório anteriores a 1840 foram jogadas fora. Não se sabe o dia e o local oficiais do nascimento dela. Em Tubarão, todos os registros entre 1820 e 1824 desapareceram. Em Lages, as folhas de registros da época foram arrancadas. É um misto de descaso e vandalismo privado.
Para conseguir o máximo de informações possíveis, o jornalista trabalhou com uma equipe de pesquisadores que buscou dados na Universidade da Carolina do Sul (EUA), Uruguai, França e Itália. Paulo Markun procurou incluir não somente informações restritas sobre Anita, mas também detalhes do modo de vida da heroína, dos locais por onde ela passou, da época em que viveu.
A equipe de pesquisa também fez um levantamento iconográfico para resgatar toda e qualquer imagem que pudesse ilustrar as passagens do livro. Esse tipo de informação dá muito mais veracidade aos fatos, acredita.
Em Santa Catarina, Markun encontrou um importante aliado: o arquiteto Wolfgang Ludwig Rau, um suíço radicado em Florianópolis, que dedicou parte dos seus 83 anos a Anita Garibaldi. Ele mantém um acervo de livros, documentos, imagens e lembranças que serviu de base para Markun. Todo o trabalho investigativo já havia sido feito por ele, que me ajudou e foi muito gentil em permitir o acesso às informações.
O grau de reconhecimento da brasileira Anita Garibaldi em seu próprio país deixa a desejar. Segundo Markun, na Itália ela é muito mais conhecida. Por ano, cerca de 20 mil crianças de escolas públicas italianas passam pelo quarto em que ela morreu. No Brasil, se você perguntar a uma criança quem foi Anita Garibaldi, ela não tem nem idéia. Mas se perguntar sobre Chiquinha Gonzaga, todos sabem, já que foi tema de uma minissérie da Rede Globo.
Recentemente, deputados catarinenses tentaram transferir os restos de Anita, enterrados na Itália, para o Brasil. Não deu certo. Os italianos acham que não há razão para tirar os restos de lá. É uma batalha difícil. E não adianta fazer isso se não tiver uma campanha de esclarecimento.
O prefácio do livro Anita Garibaldi... é assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O motivo da escolha? Conheço o Fernando Henrique desde 1974 e o convidei. No prefácio, ele incorpora informações que eu não saberia como apresentar. São raciocínios típicos de um intelectual, e não de um jornalista.
O projeto de Paulo Markun, aprovado pela Lei Rouanet, não se restringe ao livro. O jornalista também produziu um documentário, um CD Rom e uma página na Internet. O documentário, centrado na história de Wolfgang Ludwig Rau, é uma co-produção da TV Cultura e da TV Senac e foi exibido no dia 4 de agosto.
Patrocinado pela Volkswagen, Centrais Elétricas de Santa Catarina e Tam, o projeto vai destinar dois mil exemplares do livro a entidades culturais e educacionais.
Em Curitiba, o evento de lançamento terá várias atrações. É mais que uma mera noite de autógrafos. A programação inclui músicas, comida típica do Sul, exposição de fotos e vídeo, avisa Markun.
- Lançamento do livro Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira, do jornalista Paulo Markun. Hoje, às 20 horas, no Memorial de Curitiba (Largo da Ordem). Editora: Senac. Preço: R$ 35,00.Paulo Markun lança hoje em Curitiba livro sobre Anita Garibaldi, um registro completo de sua dimensão histórica
DivulgaçãoA fuga de Anita: cena do documentário produzido pela TV Cultura e Senac em homenagem aos 500 anos do Descobrimento do BrasilReproduçãoAnita Garibaldi e o marido Giuseppe, sua grande paixãoPaulo Markun, autor do livro sobre Anita Garibaldi, conseguiu informações preciosas com o arquiteto Wolfgang Ludwig Rau (à direita), que pesquisou a vida de Anita





