Em teledramaturgia, tudo o que aparece em cena tem um propósito. Inclusive, o que fica em segundo plano. Como, por exemplo, revistas, livros, jogos de xícaras, vasos de flores e até rótulos e logomarcas. Esses objetos, que são manuseados pelos personagens nas novelas ou que dizem respeito à decoração dos cenários, são criteriosamente pensados pela equipe de produção de arte.
Em tramas de época, como "Joia Rara", da Globo, e "Pecado Mortal", da Record, a atenção costuma ser redobrada. É que nada que não tenha existido de fato nos anos retratados na tela deve fazer parte da sequência. "Não podemos usar uma xícara com código de barras em baixo porque na época não existia código de barras, por exemplo", especifica Carlos Rangel, diretor de arte da Record responsável pela atual novela da emissora.
Em folhetins contemporâneos, como "Amor à Vida" e "Além do Horizonte", a produção de arte cuida para que os objetos de cena correspondam a uma realidade mais próxima do público. Nas primeiras gravações de "Em Família", que estreia no dia 3 de fevereiro na faixa das 21 horas na Globo, em Goiás, a produtora de arte Lara Tausz e sua equipe tiveram de elaborar um desfile alegórico pela cidade, um trabalho em conjunto com cenografia e figurino. Para os dois dias em que a sequência foi captada, 8 mil flores de papel crepom, 100 estandartes e bandeiras, mais de 5 quilômetros de guirlandas, dois carros alegóricos e 50 bois e cavalos montados por peões da região foram produzidos. "Levamos muita coisa, mas contamos também com os artistas locais e a população que foram essenciais. Sem eles não seria possível retratar com tanta fidelidade", avalia Lara.
A produção de arte também está presente quando a cena é minimalista. Como nos momentos em que Pérola, vivida por Mel Maia em "Joia Rara", lê um livro sobre a vida de Buda. A publicação, com várias ilustrações, foi idealizada e confeccionada pela equipe de Ana Maria Magalhães, que também foi responsável pela criação da radionovela, com direito a "jingle", que os moradores da pensão escutam.
Na escolinha da fictícia Tapiré, em "Além do Horizonte", todos os cartazes e calendários com imagens da região amazônica expostos foram elaborados sob a batuta de Marcus Figueiroa. Neles, estão o alfabeto e palavras em inglês. "Nos inspiramos até nos nomes dos alunos de lá para criar o cartaz com a chamada de presença", acrescenta Marcus.
Além da confecção de objetos necessários para uma obra televisiva, o trabalho da produção de arte consiste muito em garimpar peças em antiquários e até lojas de shopping. Depois da fase de pesquisa, que começa meses antes da estreia, produtores vão a campo em busca dos objetos ideais. Foi o que Carlos Rangel fez para conseguir as peças dos anos 1970 que aparecem em "Pecado Mortal". O diretor visitou duas feiras de antiquários em São Paulo, onde adquiriu 80% do acervo da trama de Carlos Lombardi. O restante foi comprado na Praça da República, no Rio de Janeiro, e em lojas de decoração.
"É preciso ter muito cuidado porque são peças únicas e vários cenários são desmontados todos os dias. Se alguma quebrar, temos de consertar, se der, ou perdemos. Mas estamos tendo sorte nesse sentido", frisa Rangel, que costuma apelar para a réplica apenas quando o objeto será quebrado em cena. "A alta definição denuncia quando reproduzimos uma peça. Vidro, então, é impossível", esclarece.
Diante do não compromisso com a realidade, a equipe do produtor de arte Guga Feijó pôde ousar em "Saramandaia". E criou um pavão de topiaria inspirado no filme "Edward, Mãos de Tesoura" para a praça central da fictícia cidade de Bole-Bole. Além da imagem de Santo Dias em 1,2 m, em homenagem a Dias Gomes, autor da trama original de 1976. As guloseimas em que Dona Redonda, de Vera Holtz, se esbaldava também eram função da produção de arte. "Para facilitar o movimento e destacar o ato de devorar a comida, criamos doces em tamanho mini, que pudessem ser enfiados na boca de uma vez só", esmiúça Guga.

mockup