Nos limites da realidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de maio de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
O silêncio sobre o acontecido é lei aqui. Quase como uma sentença, os segredos entre famílias também são guardados a sete chaves. Normalmente trágicos, revelam nuances de comportamento que se expõem quando as situações-limites acontecem. Delírio? Loucura? Insanidade? Desespero? Medo? Ou simplesmente a inabilidade de amar? Sem respostas prontas, o espetáculo Último Inverno, do Grupo Boca de Baco que está comemorando 16 anos leva ao palco a história dramática de três irmãos que se deparam com um dilema: o que fazer com a irmã recém-nascida, Albertina, que há quatro dias e quatro noites, não pára de chorar, após a morte de sua mãe durante o parto.
A peça estréia amanhã, às 21 horas, com apresentação exclusiva para convidados, e fica em temporada de quinta a domingo, até 4 de junho, na Usina Cultural.
Isolados, em plena geada negra, que ocorreu em 1975, os irmãos se vêem diante da seguinte opção: lutam para proteger a vida ou se fecham em si mesmos, abrindo mão de outro ser vivo, que é diferente e exige atenção para sobreviver? A melhor decisão, que a princípio pode parecer óbvia, não está isenta dos conflitos que norteiam as relações humanas. Inevitável os pensamentos de morte não se fazerem presentes. Como elementos cênicos, o facão, a pá, e até uma lata com veneno de rato passam a ser signos gritantes do desespero. Objetos em vermelho também chamam a atenção: ícone de morte, mas também de vida.
No palco, Zaíra (Jackeline Seglin), Piracicaba (Nivaldo Lino) e Marcelino (Paulo Munhoz) dão vida aos personagens dramáticos que levam à ficção o drama da vida privada. Com dramaturgia do jornalista e roteirista Francelino França, a montagem é resultado do recolhimento de histórias da vida real feito pelos próprios atores tendo como base a contação de histórias através da tradição oral.
Nos últimos cinco anos, o grupo Boca de Baco direcionou seu trabalho para a pesquisa de linguagem com ênfase na interpretação, a partir de processo desenvolvido no Núcleo de Investigação Teatral (NIT), sob coordenação do diretor paulista Luiz Valcazaras, idealizador da metodologia. Em sua décima montagem, o grupo convidou Marcelo Bones para a direção do espetáculo. Com 25 anos de carreira, Bones trabalhou com um dos mais importantes grupos do País, o Galpão, de Belo Horizonte, no qual atuou como diretor assistente do esptáculo Um Trem Chamado Desejo. Também assinou a direção de espetáculos como O Beijo no Asfalto (1999), de Nelson Rodrigues, com a Cia Reviu a Volta (MG), Olympia, monólogo da atriz Ângela Mourão (2002), e mais recentemente, O Homem da Cabeça de Papelão (2004), trabalho do grupo Trama de Teatro (MG) sendo que as três montagens puderam ser vistas em programações do Festival Internacional de Londrina.
Com uma dramaturgia extremamente realista, optei por radicalizar no aspecto do delírio dos personagens. Por ser uma colaboração coletiva, o processo é bastante dolorido, que deixa uma instabilidade grande, mas que promove várias possibilidades ricas de criação, destacou o diretor Marcelo Bones. Dividido entre a direção presencial e a distância, modalidade que utilizou pela primeira vez, Bones disse que nunca a ferramenta da internet foi tão útil. Gosto de trabalhar com grupos, pessoas que tenham o acúmulo de trabalho juntas. Isso facilita a direção, de certa forma, e beneficia a reflexão sobre o trabalho teatral. E o espetáculo de teatro é vivo, como vinho, vai se modificando a cada contato com o público, comentou.
Serviço:
- Último Inverno, do grupo Boca de Baco. Estréia amanhã, às 21 horas, somente para convidados. Temporada: até 4 de junho, quinta a domingo, às 21 horas, na Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159), esquina com São Salvador), em Londrina. Ingressos: R$ 5,00 e R$ 2,50 (estudantes, terceira idade e associados da Usina Cultural). Estacionamento no local. Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
- Ficha Técnica: Projeto: Boca de Baco 15 anos; Direção: Marcelo Bones; Elenco: Jackeline Seglin, Nivaldo Lino e Paulo Munhoz; Dramaturgia: Francelino França; Cenário: Marcelo Bones; Concepção de Figurino: Regina Mello e Francelino França; Trilha sonora original: Marco Turetta; Iluminação: Tácito Cordeiro; Assistente de direção: Francelino França; Direção de movimento: Carina Corte; Coros: Sílvio Ribeiro; Preparação vocal e energética: Meire Valin; Pesquisa de histórias: Boca de Baco; Fotografia: Karina Yamada; Produção: Cláudio Rodrigues.
- Apoio: Usina Cultural, Brasiliano Bar & Cozinha, Don Quijote Petiscaria, Restaurante Sabor & Ar, Bar do Jota, Restaurante do Toninho, Tomate Seco Café Teatro, Bar Valentino, Restaurante Alameda/Dá Licença, Restaurante Akira, Crillon Palace Hotel.


