Nos limites da arte e da loucura
Nelson Sato
Uma teia, um labirinto, um acervo perturbador de obras de arte. A um mês da celebração dos 10 anos da morte de Arthur Bispo do Rosário, o legado do artista plástico que passou meio século confinado em manicômios permanece intrigando pesquisadores de todas as áreas.
O livro Arte e Loucura, do professor de filosofia Jorge Anthonio e Silva, vem engrossar a série de estudos sobre Bispo que já inclui vídeos, filmes, teses acadêmicas e uma biografia. O autor levou quatro anos para escrevê-lo. Publicado pela EDUC (editora da PUC-SP), o livro reconstitui a trajetória do artista e faz uma análise descritiva de sua obra juntando cacos de sua existência errática às respectivas projeções sobre os objetos criados.
Segundo o pesquisador, Bispo do Rosário deixou trabalhos que se encaixam na linguagem da arte contemporânea, aquela que rompeu com a representação do visível para ser um caminho de conceitos abertos à representação. Mas Bispo nunca se considerou um artista. Tudo o que produziu nos 50 anos em que viveu em manicômios, sempre teve para ele um sentido místico.
As colagens, os bordados, as miniaturas e os estandartes eram criados com o propósito de serem apresentados a Deus no dia do Juízo Final. Ele se achava um escolhido, um enviado divino. Era possuído por visões e delírios. Passava longos períodos alimentando-se apenas com leite e frutas. Queria tornar-se, segundo suas próprias palavras, leve e transparente a fim de ascender aos céus.
Seu primeiro surto psicótico ocorreu às vésperas do Natal de 1938, quando teria visto Jesus Cristo descer à terra rodeado de sete anjos azuis. Na ocasião, vozes do além teriam lhe atribuído a missão de reconstruir o mundo. Consta que estivera vagando pelo Rio de Janeiro por dois dias e duas noites até ser interceptado pela polícia, que o encaminhou para a primeira internação.
Foi o começo da saga do artista, que pulou de hospício em hospício deixando em cada local fragmentos de sua obra, cujo reconhecimento pelos curadores da Bienal de Veneza de 1985 desmoralizou os que ainda duvidavam do valor estético de suas inusitadas peças.
O livro passa a limpo seu drama, apresentando uma pequena biografia com depoimentos do crítico de arte Frederico Morais (organizador de duas exposições de peças de Bispo do Rosário), do fotógrafo e antropólogo Deni Denizart (autor de um vídeo sobre ele) e de pessoas que conviveram com o artista nos diversos asilos psiquiátricos.
Jorge Anthonio lembra que Bispo tornou-se uma espécie de líder na colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Ao organizar as filas durante o almoço e o jantar, passou a ser chamado de xerife pelos internos, os quais o presenteavam com vários objetos para a composição de sua obra.
O autor nota à certa altura do livro que a profusão de pratos, sapatos, congas, pentes, canecas, bolsas femininas, bonecas e tantos outros elementos díspares nas montagens se justifica por essa romaria de loucos à caserna do chefe. Quando faltava material, desfiava seu próprio uniforme de interno para bordar minuciosamente seu mantos e estandartes.
Foi desse modo que cerziu o famoso Manto da Representação, bordado ao longo de toda a sua vida para ser vestido no dia do encontro com o Redentor. Jorge Anthonio e Silva destaca o bordado figurativo como principal criação de Bispo. É o segmento mais mostrado em exposições, porque se sustenta como técnica inusitada, como procedimento particular e como possibilidade de expressão própria, sem precedente na história da arte brasileira - afirma.
Lençóis e cobertores também serviram de suporte para os bordados, onde imagens simbólicas e frases enigmáticas se mesclavam a nomes de pessoas que ele teria conhecido no passado. Um nome em especial aparece em várias das mais de mil peças legadas pelo artista. É o da psicóloga Rosângela Maria Magalhães, a quem Arthur Bispo do Rosário dedicou atenção e afeto durante os dois anos em que ela fez estágio na colônia Juliano Moreira.
Depois da saída da estudante, o artista volta a recusar as refeições e dizer que estava na hora de fazer a passagem. Ele morreu no dia 5 de julho de 1989, vítima de arteriosclerose e infarto do miocárdio. Tinha presumivelmente 80 anos.Livro reúne biografia e análise da obra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário
ReproduçãoArthur Bispo do Rosário: ele dizia que queria tornar-se leve e transparente a fim de ascender aos céusReproduçãoUma das obras do artista que passou anos internado numa clínica psiquiátrica





