Nos lençóis da alcova
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terça-feira, 01 de agosto de 2000
Especial para a Folha2 
Há várias formas de um homem ganhar dinheiro, lícita e ilicitamente. Houve uma época em que falar mal dos nobres era uma das maneiras de enriquecimento. O escritor italiano Pietro Aretino foi um dos homens que exerceu essa profissão com afinco. Exímio poeta satírico, recebia gordas contribuições de reis e rainhas para que, com sua língua ferina, não os ridicularizassem. -
Pietro Aretino nasceu em 1492, numa família humilde. Filho de sapateiro, desenvolveu seus dons literários de maneira totalmente autodidata. O único acesso que teve com as letras vinha de seu primeiro trabalho, o de encadernador de livros. Para ganhar notoriedade, utilizou um recurso inovador na época e presente até os dias de hoje nos veículos de comunicação de massa. Imprimia ele próprio folhetos com versos satíricos denegrindo e ridicularizando pessoas importantes e poderosas e distribuía-os pelas praças e ruas. Dessa maneira seu nome ganhou popularidade e fama, levando-o a ser financiado por aqueles que ele satirizava.
Recebeu dinheiro e proteção de religiosos como o papa Leão X, cardeal Medici, de nobres europeus como Carlos V, Henrique VIII além de reis e rainhas de Portugal, Hungria, Boêmia, Polônia e Itália. Em vários momentos foi ameaçado de morte, tendo que abandonar Roma e refugiar na cidade de Veneza, onde viveu seus últimos anos, falecendo em 1556. Era uma espécie de chantagista literário que, por via de habilidosa dosagem de lisonjas, ameaças e calúnias, criava ou destruía uma reputação. Se auto-designava orgulhosamente de O Flagelo dos Príncipes.
Considerado um dos grandes poeta italianos da Renascença, apenas uma pequena parte de sua obra sobreviveu a fúria de seus inimigos. Entre elas se destaca Sonetos Luxuriosos (Sonetti Lussuriosi), que passou por uma série de proibições sobrevivendo apenas na clandestinidade e nos porões das bibliotecas.
Integrante do time de clássicos da literatura erótica ocidental Sonetos Luxuriosos acaba de receber sua primeira edição brasileira, a primeira tradução em língua portuguesa realizada por José Paulo Paes. Publicado pela Editora Companhia das Letras em edição bilíngue, a obra é composta por 26 sonetos de temática exclusivamente sexual que durante séculos foram considerados pornográficos.
Aretino não utilizava o modelo tradicional de soneto com duas quadras e dois tercetos. Ele inseria um terceto a mais, numa variante italiana do gênero. Com um vocabulário cru, repleto de palavras chulas pelo eruditos, os versos tratam de relações heterossexuais com grande ênfase dedicada à sodomia. Sem sentimentalismo, sem emoções açucaradas, apenas sexo. Os sonetos são estruturados em duas vozes, a masculina e a feminina, num diálogo de sedução. Na grande maioria dos versos, a voz masculina exercita seu poder fálico de persuasão para abater toda e qualquer relutância feminina. Tudo começa e termina no ato erótico em si, numa fusão de pura sexualidade onde os sentimentos não têm papel algum a desempenhar nas palavras exatas de José Paulo Paes.
Aretino, quando acusado de pecaminoso, defendeu-se dos falsos moralistas da seguinte forma: Que mal haverá em contemplar um homem a possuir uma mulher? Serão os mesmos animais mais livres do que nós? Não é mister ocultar órgãos que engendram tantas criaturas belas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que dissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários, torturam a alma, ferem e matam. (M.L.)
Sonetos Luxuriosos, de Aretino. Editora Companhia das Letras. Tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. Edição bilíngue, 110 páginas. Preço: R$ 19,00.


