NOS DOMÍNIOS DE DOLLY
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de janeiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
No mundo, os avanços científicos não andam: correm a passos gigantescos. O que há pouquíssmo tempo eram fantasias que dançavam nas cabeças dos gênios hoje são fatos concretos que estão mudando a humanidade. O 6º Dia, em amplo lançamento nacional a partir de hoje, com sete cópias só no Paraná , aborda um tema clássico da ficção científica, as manipulações genéticas e a clonagem. O mito de Frankenstein, Dr. Jeckyll e Mr. Hyde e de romances da literatura fantástica sempre receberam visitas mais que atenciosas do cinema. Mais recentemente, Gattaca mostrava com originalidade e certo talento uma evolução possível da medicina genética.
The 6th Day se interessa mais especificamente pela clonagem. O argumento parte justamente de um futuro provavelmente muito próximo. O piloto de helicóptero Adam Gibson (Schwarzenegger) anda um tanto perplexo com a evolução do mundo. E fica ainda muito mais quando, no dia do aniversário, encontra na festa um clone dele comemorando com a família. E não é só: a partir daí ele é a caça de assassinos contratados pelo milionário Michael Drucker (Tony Goldwyn), industrial do área biotecnológica. O problema todo é que duplicaram o homem errado.
A primeira meia hora do filme instala um clima futurista até bem agradável, acrescentando interessantes e divertidos comentários visuais sobre plausíveis conquistas tecnológicas clonar o gato da filha, recém-falecido, ou transitar em carro auto-dirigido. Até a dupla cômica Schwarzy-Michael Rapaport funciona bem. Mas decorridas algumas tentativas risíveis de oferecer contribuição mais consistente ao debate sobre clonagem, O 6º Dia define claramente seu limite e rompe as comportas da ação mal represada. O diretor Roger Spottiswoode esquece a tranquila quietude do terço inicial e investe numa direção epidérmica, fatigante e superficial. De um lado um Arnold suburbano, cinquentão, assalariado, pai de família; do outro, famigerados, os assassinos: uma jovem de cabelos azuis e um afro-americano.
Sem nenhum rasgo de originalidade, o restante do filme não dá um passo além do que se propõe, vale dizer, inconsequente passatempo de férias, somente respaldado pela artilharia de efeitos especiais para olhos mais atentos e acostumados ao básico atual de Hollywood, as trucagens via computador são bem de segunda mão. Quanto a Schwarzenegger, é difícil ser rigoroso mesmo quando a dose é dupla. Aqui ele tenta relançar uma carreira abalada pela concorrência de heróis mais humanos que musculosos, e que atendem pelos sobrenomes de Gibson, Willis e agora Crowe. Assim como para Stallone, está difícil para Schwarzy o reencontro com o sucesso de outros tempos.


