Entre as quatro paredes de uma sala de aula, é possível aprender e vivenciar muitas coisas além de matemática, português e geografia. Pilar, por exemplo, sentiu isso na pele quando experimentou na escola, pela primeira vez na vida, duas coisas que não estavam nas lições do caderno: a corrupção e a delação.
Pilar fala sobre isso em ''Conto de Escola'', história escrita por Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. O livro está sendo publicado pela Cosac & Naify com ilustrações de Nelson Cruz, numa bela edição direcionada ao leitor infanto-juvenil.
Machado de Assis (1839 - 1908) não criou o texto para ser lido por jovens leitores, mas ele se encaixa perfeitamente no universo escolar, o lugar onde todo mundo passa (ou passou), no mínimo quatro horas do dia. O lugar onde além das disciplinas oficiais, oferecidas pelos professores, existem as disciplinas de corredores, oferecidas pelos colegas.
Pilar é um garoto que, apesar de não enfrentar nenhuma dificuldade de aprendizado, prefere viver pelas ruas em vez de ficar preso em sala de aula sob numa rígida disciplina. Mas para evitar as doloridas surras do pai, acaba sempre pegando o caminho da escola.
Certo dia, recebe uma proposta nova: passar cola para um colega em troca de uma valiosa moeda. No início fica em dúvida, mas depois aceita a proposta. O problema é que as coisas acabam dando errado. Um dedo-duro conta ao professor o acontecido e tudo termina mal, com a punição dos dois envolvidos - Pilar, que vende a cola, e Raimundo, que compra a cola. E assim, nasce o desejo de vingança contra o delator.
O texto foi escrito por Machado de Assis mais de cem anos atrás, em 1884. Dessa maneira, alguns hábitos descritos pelo autor não existem mais. Entre eles está o uso da palmatória nas escolas, pratica abolida há muito tempo. A palmatória era um instrumento de madeira - semelhante uma colher-de-pau cheia de furos - utilizada para bater nas mãos dos alunos que cometessem algo errado na sala de aula. A expressão ''escreveu não leu, o pau comeu'', por exemplo, nasceu nessa época.
Além de hábitos que não existem mais, ''Conto de Escola'' também traz palavras utilizadas séculos atrás. Para isso, a edição vem acompanhada de um glossário no final. Os garotos, por exemplo, com certeza vão morrer de rir com a palavra ''boceta''. Muito diferente da gíria atual, boceta era antigamente o nome dado a uma caixinha em que as pessoas guardavam rapé, pó de tabaco que os homens tinham o hábito de cheirar regularmente.
''Conto de Escola'', acima de tudo, é uma história sobre o primeiro contato de um garoto com a corrupção e com a delação. E seu conflito entre a disciplina da escola e a liberdade das ruas.
Serviço;
''Conto de Escola'' de Machado de Assis, ilustrações de Nelson Cruz, Cosac & Naify Edições, seleção do texto realizado por Lúcia Miguel-Pereira, 32 páginas, capa dura, R$ 22,00.

mockup