Tom Cruise pode estar entre os últimos astros de cinema da chamada "velha guarda" , mas nos ultimos tempos parece que sua carreira entrou no modo piloto automático. Com uma sequência de filmes de ação (especialmente os da franquia “Missão: Impossível” e o resgate de propriedades intelectuais do próprio ator, como “Top Gun” e “Dias de Trovão”) é como se ele estivesse apresentando variações de uma mesma atuação que já foi vista antes. É difícil não decepcionar o público dessa forma e, como ficou claro em “Missão: Impossível – Acerto de Contas Final”, é possível frustrar as expectativas com o excesso de mais do mesmo.

No entanto, o ator opera em frequência totalmente diferente neste arrastado “Digger”, do mexicano Alejandro González Iñárritu, em lançamento mundial a partir de hoje (1º), Londrina inclusive. Cruise com frequência reajusta a órbita deste filme em torno de seu personagem e, por vezes, salva a realização de suas próprias ambições desmedidas.

“Digger” Rockwell (Cruise) é um rico magnata do petróleo do Texas cujos negócios bilionários ganharam escala global. Ele começa o dia cuidando de seu gato moribundo – uma pobre criatura em estado deplorável que sobreviveu muito além de seu tempo natural, pois Digger está acostumado a conseguir o que quer a qualquer custo. Sua rotina matinal é interrompida por notícias terríveis vindas da Groenlândia: equipamentos de sua empresa provocaram o desprendimento de uma plataforma de gelo que colidiu com a Europa continental, causando destruição generalizada e a morte de centenas de milhares de pessoas.

Convocado para uma sala de crise lotada, presentes o Presidente Copson (John Goodman), uma equipe de cientistas liderada por Ganesh (Riz Ahmed) e outras autoridades de alto escalão, Digger enfrenta o maior desafio de sua vida até agora: manipular a narrativa da verdade à medida que o aquecimento global bate à porta de todos os terrestres. À exceção do cientista, que havia alertado sobre o desastre (e quer contar a verdade para o mundo), os demais no recinto são canalhas e idiotas. Tudo isso em tom de sátira política.

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POUCA INSPIRAÇÃO

“Digger” comete um erro fundamental: flertar com “Dr. Strangelove” (1962), de Stanley Kubrick. A sátira genial criada por um gigante do cinema caiu agora nas mãos de quatro roteiristas – um deles o próprio Iñárritu – deste filme congestionado de pouca inspiração, que tenta emular o clássico da comédia política dos anos 60. Há tantos senões em “Digger” que vamos deixar Kubrick de lado, fingindo não ter notado as referências grosseiras e irrelevantes.

A história de “Digger” é daquelas situações em que "há mais do que os olhos veem" mas, no fim das contas, seu discurso ambiental soa como algo óbvio demais. O filme revisita o tema do aquecimento global já abordado em “Não Olhe para Cima” (Adam Mckay, 2021), trocando apenas levemente o perfil dos vilões (um magnata do petróleo pomposo em vez de um guru da tecnologia excêntrico), mas mantendo a mesma abordagem agressiva para martelar sua mensagem.

Tom Cruise interpreta “Digger” Rockwell, um rico magnata do petróleo que, por vezes, reajusta a órbita de um filme entediante
Tom Cruise interpreta “Digger” Rockwell, um rico magnata do petróleo que, por vezes, reajusta a órbita de um filme entediante | Foto: Divulgação

Estamos condenados se deixarmos esses imbecis comandarem nosso planeta e, no entanto, lá estão eles, ocupando todo o espaço nas salas de decisão. Mas a reflexão não vai muito além desse sentimento. Embora “Digger” apresente muitas ideias, nem todas realmente aprofundam a discussão ou vão além da obviedade; depois de estabelecer que os ricos arruinaram a Terra, o filme traz um rico benevolente que usa seus recursos e tecnologia para salvar a situação. Talvez alguns ricos até prestem, sugere o filme, mas apenas se aprenderem com os erros vergonhosos e destrutivos de seus parentes.

Esta tentativa de comédia/fábula de advertência resulta em filme entediante e, mesmo inflamado pelo próprio discurso, deixa-se comover pela farsa e busca na sátira uma espécie de reforço para sua crítica. E uma vez mais, a substância do recheio é relegada a segundo plano e se perde na balburdia inócua do estilo do Alejandro Iñárritu, longe de repetir seus melhores filmes.

* Confira a programação de cinema no site da FOLHA.

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