A seis meses de completar 80 anos (18 de dezembro), Steven Spielberg retorna às suas raízes e revisita vários de seus próprios clássicos em “Disclosure Day/Dia da Revelação”(em exibição em Londrina), um filme que dá a impressão de ser — tanto em forma quanto em conteúdo — uma espécie de antologia ou coletânea de grande parte de sua obra anterior.

Desde seu primeiro longa-metragem ainda como amador, a ficção científica “Firelight” (1964), o cineasta de maior sucesso de Hollywood sempre foi fascinado pela ideia de vida extraterrestre. E “D Day” reafirma essa convicção em formas de vida não humanas e na influência que elas poderiam ter — tanto positivas quanto negativas — sobre a nossa humanidade.

"Dia D" parte do princípio de que os alienígenas existem e que o governo está nos enganando
"Dia D" parte do princípio de que os alienígenas existem e que o governo está nos enganando | Foto: Divulgação

Baseado em um esboço de 54 páginas do próprio Spielberg, o roteirista David Koepp criou um filme sob medida para sua visão. Assim como em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), um dos ápices de seu cinema, que se mostrou decisivo na consolidação de certa iconografia alienígena, há dois personagens mais importantes e desconhecidos um do outro, mas que estão destinados a convergir no mesmo ponto de encontro não apenas para terem sua revelação, mas também para torná-la conhecida ao mundo.

E então acontece a explosão da aula magna do mestre contador de histórias.

Spielberg revela suas cartas logo no início. Ele começa "Disclosure Day", desorientando o espectador, colocando seu personagem principal, um perfeito Josh O'Connor, no que em qualquer outro filme seria o terceiro ato: um encontro para trocar o material roubado pela namorada sequestrada. Não há explicações prévias. Ele coloca o espectador, e seu protagonista, em uma situação delicada, e a partir daí ele parte para uma montanha-russa.

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Sua história se entrelaça com a de uma apresentadora televisiva da previsão do tempo, que um dia, de repente, começa a falar russo e coreano fluentemente e faz ao vivo e a cores um discurso em uma língua desconhecida, com sons guturais, para milhares de telespectadores. Emily Blunt é a intérprete, oferecendo aquela que é provavelmente sua melhor atuação até hoje. Tão engraçada quanto magnética.

SEQUÊNCIAS ESPETACULARES

A união dessas duas histórias levará Spielberg a construir sequências espetaculares: o carro engatado ao trem (a repetição à beira do abismo com o caminhão assassino em “Encurralado”, 1971), o carro que atravessa paredes ou a cena da invisibilidade; mas também o leva a revelar os temas que se escondem sob sua aparência de sucesso de bilheteria: uma reflexão sobre a fé, a verdade, sobre Deus, sobre a ciência e a empatia, e, no fim, sobre a fé do cineasta nos seres humanos neste momento.

Enquanto Spíelberg nos absorve (e entretém) com sua construção narrativa sempre estimulante, perpassa pelo filme um forte senso de fé na veracidade dos fatos. O que, a principio, não deveria fazer de "Disclosure Day", uma obra tão politicamente engajada, mas dado o caótico e demencial estado atual do mundo, isto o torna, sem dúvida, o filme mais político do momento. A palavra "verdade", é proferida mais vezes aqui do que em qualquer outro filme anterior de cineasta, e estamos falando de alguem que fez um drama tão sério sobre a divulgação dos documentos secretos do Pentágono (“The Post – A Guerra Secreta”, 2017).

Filmes de suspense e conspiração prosperam via de regra na emoção de desvendar fatos e suspeitas que os poderosos querem manter escondidas, e, correndo em paralelo com o assassinato de JFK, a mitologia do Caso Roswell é a Pedra de Roseta para os teóricos da conspiração. Spielberg parece se divertir perguntando: E se tudo isso não for tão absurdo quanto pensávamos? Mas ele também sabe que o conceito de informação pública como moeda de troca – e reconhecer o simples fato de que 2 + 2 não é igual a 5, independentemente do que qualquer Grande Irmão da hora possa dizer – deveria ser um requisito básico para qualquer discurso normal em uma sociedade civilizada. Ela não hesitou, e a realidade passou do consenso para o campo de batalha. O cineasta poderia até estar promovendo uma campanha sensacionalista com esse retorno à ficção científica, mas ele acredita sinceramente que a verdade está lá fora e que ela nos libertará.

"Disclosure Day" parte do princípio de que: a) alienígenas existem, e b) o governo está mentindo para nós todos. Ambos os conceitos são tomados como fatos e recebem o mesmo peso, assim como a ideia de que denunciantes estão entre os últimos grandes defensores da democracia e que o poder do Estado será usado para silenciar qualquer um que tente se manifestar. No papel, este filme mais recente de Spielberg parece um thriller paranóico dos anos 1970. Na tela, parece um blockbuster de férias dos anos 1990, com todo o brilho e glamour de uma produção de alto orçamento. Na realidade, essa tentativa equivocada de capitalizar na onda de desconfiança e total falta de fé em nossas figuras de autoridade não poderia ser mais relevante.

Desta vez, os Homens de Preto são os vilões.

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