É comum referir-se aos suplementos literários em tom saudosista. Não são poucos os que já escreveram sobre as publicações atuais ressentindo-se da ausência de polêmicas em suas páginas. Com frequência, lamenta-se a extinção dos críticos formadores de opinião capazes de revelar talentos e demolir reputações.
Mas essa é apenas uma das muitas portas de entrada ao tema, que foi aprofundado pela pesquisadora carioca Isabel Travancas em sua tese de doutorado em 1998 na Pós-Graduação em Literatura Comparada do Departamento de Letras da UERJ. Três anos depois, a tese virou livro e está chegando agora aos leitores pela Ateliê Editorial.
Em ''O Livro no Jornal'', Isabel analisa quatro suplementos literários surgidos nos anos 90 dois do Brasil e dois da França. Para a empreitada selecionou ''Mais'' (do jornal Folha de S. Paulo), ''Idéias'' (Jornal do Brasil), ''Les Livres'' (Libération) e ''Le Monde des Livres'' (Le Monde).
Segundo ela, guardadas as especificidades de cada órgão de comunicação, todos são muito parecidos. ''Os suplementos tiveram um papel importante, do início do século XIX até algumas décadas, como espaço de publicação de literatura e também de crítica literária. A imprensa francesa, assim como a brasileira, mudou muito e o perfil desses suplementos já não é mais o mesmo. Eles não são mais o palco de discussões literárias, nem romances são divulgados primeiramente em suas páginas'' diz.
Os suplementos tornaram-se, segundo ela, um espaço predominantemente jornalístico com contribuições mais ou menos frequentes de acadêmicos. Pautam acontecimentos ligados a livros, escritores e mercado editorial. Como tal estão submetidos à lógica jornalística definindo-se a partir do conceito de notícia.
Trazem resenhas, reportagens, colunas fixas, seções de lançamentos, colunas de informes gerais, mas pouco que se possa denominar crítica literária, até porque são redigidos em grande parte por jornalistas e não por especialistas e teóricos de literatura. Os livros tratados seriam os recém-lançados, sendo este o primeiro critério de seleção.
Mas nem todos os gêneros literários obtêm espaço nesses cadernos. Se o romance é priorizado, há um relativo desinteresse pela poesia. A exceção seria o ''Mais'', da Folha de S.Paulo, que dos quatro suplementos analisados não pouparia páginas para destacar poetas e suas respectivas obras. O Le Monde faz a defesa da literatura francesa, dedicando a maioria de suas capas a autores pátrios.
Já o caderno do Libération tem como característica a valorização das letras estrangeiras, não raro focalizando escritores ''não consagrados'' da Palestina, Eslovênia ou Somália. Os suplementos da Folha de S. Paulo e do Jornal do Brasil, por sua vez, privilegiam a produção brasileira. Na França, ''Les Livres'' e ''Le Monde des Livres'' saem às quintas-feiras, o primeiro desde sua criação e o segundo há 20 anos. Coincidência ou não, é o dia de maior circulação de exemplares de ambos os jornais na semana.
No Brasil, ''Mais'' e 'Idéias'' são publicados nos finais de semana, o que leva a autora a observar que ''lá eles provocanm venda, aqui eles são produzidos em dias de maior venda e vão a reboque''. Ao longo da investigação, Isabel desvenda as teias de relações entre a imprensa, os escritores, os intelectuais acadêmicos e as editoras. Nota que alguns autores recebem tratamento privilegiado dos suplementos.
Se na França o escritor Philippe Sollers polariza tomadas de posição entre os dois jornais sendo reverenciado pelo Le Monde e criticado pelo Libération, no Brasil são os irmãos paulistas Haroldo e Augusto de Campos e o carioca Rubem Fonseca que aparecem com frequência exagerada nas publicações locais. Na França, há ainda os chamados ''incontournables'', termo cunhado para designar os autores de quem a imprensa é ''obrigada'' a falar.
Nesta categoria estariam incluídos ilustres como Marguerite Duras, Patrick Modiano, Le Clézio, Michel Rio e Michel Tournier. No Brasil figurariam o já citado Rubem Fonseca e escritores já mortos como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade. Isabel levanta a questão da ''troca de favores'' entre profissionais da imprensa e editoras.
Segundo ela, haveria uma desconfiança em relação à editora Companhia das Letras, que publicaria livros de jornalistas importantes com objetivos duvidosos. Os eleitos, no caso, se sentiriam comprometidos com o seu editor e lhe fariam concessões escrevendo apenas resenhas positivas dos títulos por ela lançados.
O jornalista Humberto Werneck, que tem livros chancelado pela Companhia das Letras, tem um depoimento reproduzido pela autora rebatendo a suspeita. A seu ver, o fato de publicar livros de jornalistas de prestígio obedece menos a ligações perigosas do que a critérios literários. ''Acho que o (editor) Luis Schwarcz descobriu que alguns jornalistas podem escrever livros de boa qualidade, com pesquisa aprofundada, mas com um estilo potável e saboroso. Porque muitas vezes o acadêmico produz coisas muito farpadas seguindo regras e muitas vezes fica chato'' diz.
A polêmica está aberta. ''O Livro no Jornal'' não esgota o assunto, mas contribui para lançar luzes sobre a imprensa literária contemporânea, já que a maioria dos estudos costuma examinar outros períodos e épocas.


''Livro no Jornal''. Ateliê Editorial. Telefax: (11) 4612-9666.

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