Luz, câmera, ação. As palavras são muito famosas, mas o que pouca gente conhece é o trabalho que precisa ser feito antes e depois das tomadas de cena para que um filme efetivamente chegue às telas de cinema. É sobre esse longo e meticuloso processo que escreve Sidney Lumet em ‘‘Fazendo Filmes’’, que a Editora Rocco acaba de colocar no mercado. O diretor busca na própria experiência de comandar aproximadamente 40 longas-metragens, entre eles ‘‘Doze Homens e Uma Sentença’’, ‘‘Sérpico’’, ‘‘O Veredicto’’, ‘‘Um Dia de Cão’’, ‘‘Rede de Intrigas’’ e ‘‘O Grupo’’, para escrever uma espécie de manual prático para futuros diretores de cinema.
Com o intuito de esclarecer passo a passo todas as etapas para se chegar ao final de um filme, Lumet escreve de uma forma essencialmente didática. Mas o livro também é uma oportunidade para o diretor relatar os seus 40 anos de experiência no mundo cinematográfico. Lumet repete diversas vezes no livro que não existem pequenas decisões em filmagens. Por isso, ele se ocupa de todos os detalhes do processo. E o livro segue à risca todos os afazeres de um diretor e aborda a importância e a complexidade dos mais diversos fatores. Desde o roteiro à trilha sonora, da direção de arte à maquiagem e do orçamento à inspiração dos escritores, atores e do próprio diretor quando estão fora ou dentro de um set de filmagem.
Lumet dá dicas de efeitos de luz e fotografia, ensina os macetes para conseguir bons enquadramentos e um melhor desempenho do ator. O diretor também faz considerações sobre o fazer cinematográfico e, de quebra, conta a experiência em trabalhar com alguns dos maiores astros do nosso século, como Marlon Brando, Ingrid Bergman, Katherine Hepburn, Paul Newman, Sean Connery e Al Pacino. Só estas confissões já valem o livro. Uma das passagens mais reveladoras está no capítulo em que o diretor fala dos atores. Em uma das cenas que Marlon Brando rodava para ‘‘Vidas em Fuga’’, de 1960, ao lado de Anna Magnani, o ator levou duas horas e meia para falar um trecho do texto de Tennesse Williams.
Foram exatas 34 tomadas que embaraçaram não só o diretor, como toda a equipe de filmagem. Embora Lumet tenha proposto emendarem a cena do ponto onde Brando estava errando, o ator não aceitou. Ele insistia que queria fazer uma tomada única, embora estivesse tropeçando no mesmo pedaço do texto que evocava um problema pessoal mal resolvido. Lumet decidiu apostar no feeling de Brando e foi em frente. Já na cena em que Al Pacino dá dois telefonemas simultâneos em ‘‘Um Dia de Cão’’, após 12 horas dentro do banco que assaltou, o problema foi o nível emocional que Lumet exigiu do ator. Al pediu para gravar apenas uma vez, deu tudo de si na cena, mas por um problema técnico tudo teve de ser rodado novamente. Ao encerrar a segunda tomada, o ator correu desesperado para Lumet e, ao ficar sabendo que valeu a sequência, caiu aos prantos sobre uma mesa no meio do set.
Mas ‘‘Fazendo Filmes’’ (208 páginas/R$ 22) não é uma leitura agradável para simples admiradores de cinema. É um livro para pessoas e profissionais que já têm noções básicas da sétima arte e para quem já viu, pelos menos, parte dos 40 filmes de Lumet. Outro problema é que o diretor aborda profundamente questões como estilo, mixagem, montagem e a maneira de organizar os copiões dos filmes, tornando a leitura lenta e maçante para leigos. Até organogramas financeiros Lumet explica em detalhes.
O maior acerto do diretor americano, no entanto, é não ter utilizado o livro para contar fofocas dos bastidores. Apesar de analisar os atores com quem trabalhou - Marlon Brando é definido como cínico, Paul Newman como perfeccionista e Al Pacino é comparado a uma máquina de trabalho - Lumet fixa seu discurso estritamente em torno das ações para se fazer um filme. Problemas pessoais estão de fora. O que fica claro no livro é que o diretor é extremamente humilde. Nenhum de seus longas, por exemplo, vem precedido de um filme de Sidney Lumet. O diretor divide cada milímetro dos filmes com atores, maquinistas, escritores e camareiras. Lumet passa longe do narcisismo, tão comum no circuito de Hollywood.

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