‘‘Jânio Quadros - A Renúncia e os Governos Militares’’ (Editora Legenda, 126 páginas, R$ 16,00), é o segundo livro do advogado e jornalista Arnaldo Lacombe. Com base em pesquisa exaustiva e depoimentos inéditos de personagens que tiveram influência na renúncia do presidente, em 25 de agosto de 1961, Lacombe se detém numa análise histórica sob dois aspectos: os fatores que levaram Jânio Quadros a deixar o cargo e as consequências diretas e indiretas que teve a decisão do presidente. ‘‘A renúncia significou a ascensão de João Goulart, num regime parlamentarista que ele mesmo se incumbiu de levar ao descrédito’’, responde o autor, no texto de apresentação do livro.
Entre os depoimentos inéditos transcritos no livro, está o do tenente-coronel Octavio Alves Velho, designado para fazer a escuta do serviço telefônico de Brasília, sob ordens do Ministério da Guerra, que era como se chamava a pasta do Exército.
Velho registra um telefonema do ministro da Justiça, Pedroso Horta, para o governador de São Paulo, Carvalho Pinto, que recebia para almoço os governadores Leonel Brizola, do Rio de Janeiro, Celso Ramos, de Santa Catarina, e Ney Braga, do Paraná.
‘‘O governador é colocado a par da renúncia e recomenda a Pedroso Horta que rasgue a carta da renúncia, porque ele se incumbiria de torná-la sem efeito, devolvendo o presidente a Brasília’’, escreve Lacombe. Mas o governador voltou à mesa e nada disse a seus convidados sobre o que ocorrera. ‘‘O presidente, que esperava uma reação pelo seu retorno ao posto, dizia que Carvalho Pinto o traíra’’, conta o autor.
Mágoa igual o presidente teve por Pedroso Horta, de acordo com Lacombe. Jânio Quadros nunca perdoou quem o convenceu de que sua renúncia seria amplamente debatida. ‘‘Jânio estava tão certo de que seria recolocado no poder, que viajou para São Paulo levando a faixa de presidente’’, conta. ‘‘Foi nessa certeza que Horta entregou a carta de Jânio à Câmara.’’
Ao analisar os fatos hoje, Lacombe diz que seria muito improvável que a renúncia do presidente provocasse uma manifestação popular em Brasília. ‘‘Na capital, as distâncias são enormes; não há movimentos populares’’, afirma.
Consumada a renúncia, o ex-presidente viajou para uma volta ao mundo em companhia da mulher, Eloá e, no retorno, seguiu para Belo Horizonte para defender uma causa, advogado que era. Foi convidado pelo governador de Minas, Magalhães Pinto, para almoçar no Palácio e, nesse dia, fez uma curiosa declaração que Lacombe reproduz no livro.
No meio da conversa, Jânio disse: ‘‘Veja só, governador, o Mário Martins, deputado pela Guanabara, renunciou ao mandato, a Câmara levou um mês para aceitar a renúncia e só a concedeu depois de ouvi-lo na Comissão de Justiça.’’ E concluiu, irritado: ‘‘Eu renunciei e, em três horas, eles passaram a faixa no lombo do Mazzilli.’’
Depois da renúncia, como o vice-presidente João Goulart estava em viagem oficial pela China, o presidente da Câmara dos Deputados, Paschoal Ranieri Mazzilli, foi imediatamente empossado como presidente da República.
Lacombe começou a fazer anotações sobre a renúncia em 1976. Dos anos 60 em diante, conviveu com Jânio Quadros, de quem se tornou amigo. Ao longo de sua carreira de advogado, Lacombe ocupou cargos que o aproximaram dos bastidores da história, entre eles, o de diretor-geral da Agência Nacional, do Gabinete Civil da Presidência da República, em dois períodos, de 66 a 67 e de 69 a 72. Como jornalista, Lacombe escreveu para revistas e jornais, entre eles o jornal O Estado de S. Paulo, do qual foi editorialista entre 81 e 96.
‘‘Jânio Quadros - A Renúncia e os Governos Militares’’ é dividido em duas partes. A renúncia e suas consequências ocupam a primeira metade. Na segunda parte do livro, o autor apresenta breves biografias de três personagens de importância para a política do País: o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola; do general Golbery do Couto e Silva e do ex-ministro João Leitão de Abreu.
Lacombe é autor de ‘‘É Isso aí - Humor Vip’’ (editora Pioneira, 92 páginas) uma seleção de frases de humor de políticos brasileiros. O autor já prepara o próximo livro, ‘‘Crônicas de Inverno’’, segundo sua definição, ‘‘um livro sobre os aspectos da vida acumulados em 70 anos’’.

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