NOS BASTIDORES DO HUMOR
André Bernardo
TV Press
A última experiência do escritor Mário Prata na tevê não foi das melhores. Autor de novelas de sucesso como Estúpido Cupido e Um Sonho a Mais, em 1996 ele foi chamado às pressas pela alta cúpula da Band para substituir Ricardo Linhares no comando da novela O Campeão. O desinteresse do público, porém, era tanto que a emissora suspendeu a novela durante as Olimpíadas de Atlanta. Essa novela só serviu para me levar duas vezes para o hospital, ironiza. Quase três anos depois, Mário Prata ainda não superou o trauma. Há meses, recusou um convite de Benedito Ruy Barbosa para dividir a autoria de Terra Nostra, a próxima novela das oito da Globo. Em vez disso, preferiu continuar fazendo o que mais gosta: escrever. Agora está lançando o livro Minhas Mulheres e Meus Homens, uma coletânea de histórias bem-humoradas que envolvem tanto ilustres desconhecidos quanto gente da televisão, como o ex-todo-poderoso da Globo, Boni, a atriz Maitê Proença e o diretor Walter Avancini. O meu livro não tem a intenção de fazer fofoca ou entregar ninguém. Apenas verbetei a minha turma, define.
A idéia de escrever o 14º livro da carreira surgiu há alguns meses, quando Mário Prata conversava com um amigo ao telefone. Enquanto fazia isso, corria o cursor do computador pela infinidade de nomes que compõem sua agenda pessoal. Logo, passou a associar cada um daqueles nomes a uma ou mais histórias e, assim, veio a idéia de contar, dentre tantos, os casos mais divertidos. Dos 230 verbetes do livro, apenas 71 são de pessoas famosas. No livro, Mário Prata fala, por exemplo, do namoro com a atriz Maitê Proença, quando lecionava num curso de roteiristas de cinema no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, nos anos 80. Ele lembra também quando indicou uma atriz de teatro para o papel de Glorinha na novela Estúpido Cupido. Só que o Boni pediu para Walter Avancini fazer um teste e o diretor reprovou a moça dizendo que ela era gorda e vesga. Um ano depois, o Boni chamou a Lucélia para fazer Escrava Isaura e deu no que deu, diverte-se.
No livro, entre várias histórias divertidas, Mário fala também da ocasião em que foi chamado à sala do então presidente da Manchete, Adolpho Bloch, para conversar sobre a adaptação do romance Helena, de Machado de Assis, para o horário das seis. Sabe o que você tem de fazer para aumentar o ibope de sua novela? Tem de colocar um cabaré com um monte de mocinhas de peitos grandes, profetizou o velho Adolpho. Mesmo sem trabalhar na tevê há quase três anos, Mário Prata não perdeu o hábito de assistir novelas. Hoje, atribui a queda na audiência das novelas à falta de novos autores. Quando tinha apenas 28 anos, Mário bateu à porta do Boni com a sinopse de Estúpido Cupido e sugeriu a idéia de produzir uma novela ambientada na fictícia Albuquerque, no interior de São Paulo. Na mesma hora, o então todo-poderoso da Globo aprovou o projeto. Quando é que eles fariam um negócio desses hoje em dia?, indaga.
O tempo mostrou o quanto Boni estava certo. A novela chegou a dar 75 pontos no ibope. Quando Celly Campello - a cantora responsável pelos hits Estúpido Cupido e Banho de Lua - visitava Albuquerque, a audiência subia para 92. Mesmo assim, Prata teve sérios problemas com a censura. Em seis meses, teve de ir a Brasília 17 vezes. Alguns termos como ceroulas e transa eram alvo fácil dos censores. Eles queriam é mostrar autoridade. Faziam de sacanagem mesmo!, revolta-se. No ano passado, foi sondado pelo diretor de programação e operações da Record, José Paulo Vallone, para escrever uma novela para a emissora. No entanto, os dois não chegaram a um acordo financeiro. Eles acham que pegar 3 ou 4 que não sabem escrever novela é o mesmo que pegar um que sabe!, alfineta. Aos 53 anos, Mário Prata já ensaia um tímido retorno à tevê. Desta vez, ele planeja escrever uma minissérie de 30 capítulos. Só posso adiantar que ela sai do esquema de sala, quarto e cozinha. Mas nem sei se alguma emissora vai topar porque a minissérie é diferente de tudo o que está aí, gaba-se.





