NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
Candidato a 8 Oscar, inclusive para melhor filme, O Informante chega hoje às telas brasileiras (veja a programação de cinema nesta página) como ótima opção de entretenimento. The Insider, porém, tem fôlego adicional para preencher outras pretensões que não esconde. E de fato chega lá, ostentando capacidade profissional e artística.
Há muitos anos Hollywood não recorria a um manancial de boa safra, a um certo tipo de thriller paranóico na tradição de títulos memoráveis dos anos 70 - A Trama e Todos os Homens do Presidente, de Alan Pakula, e Três Dias do Condor, de Sidney Pollack. Ingrediente-chave desses filmes: uma espécie de inocente surpresa ao se saber que a sociedade era controlada por câmeras secretas, cujo sutil e diabólico trabalho jamais era detectado. E muito menos se sabia quem detinha o poder organizacional, capaz de liquidar tolos dispostos a ir a fundo nesse sistema ou a denunciá-lo. Esse é sempre um bom material, e o diretor Michael Mann e o escritor Eric Roth perceberam isso quando se reuniram para escrever o roteiro de O Informante.
Baseado em fatos reais - e neste caso nada existe de pejorativo - o filme lida com material explosivo. A história verídica saiu primeiro na revista Vanity Fair, no artigo O Homem que Sabia Demais, assinado pela jornalista Marie Brenner. Em 1995, o programa jornalístico televisivo 60 Minutos fez o inimaginável: cedeu às pressões da rede CBS e jogou pela janela a denúncia de um ex-executivo da toda-poderosa indústria americana do tabaco, um homem que tinha se colocado à frente de todos os riscos para testemunhar que as companhias de cigarro eram um serviço de entrega de nicotina.
Há quem diga que não se deve saber como são feitas duas coisas: salsichas e leis. E há quem acrescente a esta lista o jornalismo. Quando se trata de objetividade - ou falta de, quando se precisa - tudo parece se complicar. Acordos de bastidores acabam gerando estranhas controvérsais, quando não aberrações. Assim, quando em 1996 o produtor do 60 Minutes, Lowell Bergman (Al Pacino), decidiu levar a público a história que tinha nas mãos, ele se colocou também na mira. No centro da controvérsia estava Jeffrey Wigand (Russel Crowe), chefe de pesquisa e desenvolvimento da Brown & Williamson Tobacco Co. O executivo é posto na rua e obrigado a assinar um acordo confidencial como parte da rescisão. E esta rescisão é importante: Wigand é marido e pai, sua mulher tem hábitos dispensiosos e uma das filhas tem sérios problemas de saúde. Ele acaba complicando os termos de sua saída e decide contar à TV uma história sobre os malefícios do fumo - e como as indústrias não ignoram esses malefícios. Mas antes da entrevista de Wigand ir ao ar, a Brown & Williamson ameaça processar a todos, além de orquestrar uma campanha difamatória contra Wigand. A mulher o abandona e ele se desespera. As coisas caminham, entre sordidez e dores de cabeça judiciais.
Uma das virtudes de O Informante é reciclar a aridez de sua matéria-prima e amoldá-la à expectativa de qualquer platéia, até aquela mais embalsamada pelo corrente método da ação descerebrada. O que parecia impossível acontece: são 158 minutos de melodrama de primeira classe, escrito e dirigido com convicção, e interpretado com inteligência e intensidade pouco habituais. E a história da denúncia antifumo em si já não tem sabor de novidade, a Philip Morris recentemente assumiu que cigarro causa câncer. O que está de fato sob fogo cerrado é a questão da ética. E não só nos limites do jornalismo.O Informante é um thriller adulto que busca o que há por trás de duas grandes indústrias: dos cigarros e da notícia
ReproduçãoAl Pacino em O Informante: filme baseado em história real e interpretado com inteligência





