A música universal é pródiga em anedotário pitoresco. Mas sua narrativa parece sobreviver da transmissão oral, deixando muitas vezes de ser documentada pela escrita. O livro ‘‘Pequena Estória da Música’’, de Henrique Autran Dourado, tenta reparar a lacuna.
Em 16 capítulos, conduz os leitores a uma bem-humorada incursão pelas comédias e tragédias vividas pelos artistas ao longo da história, da antiguidade aos dias atuais do Napster e do MP3. A linguagem adotada é a da crônica descompromissada. ‘‘Conversar fiado sempre foi uma das mais sérias atividades dos músicos’’ – anota o autor no texto introdutório.
Autran (não confundir com o escritor homônimo) é contrabaixista, especialista em instrumento de cordas, ex-diretor da Escola Municipal de Música de São Paulo e professor da USP. Apesar da formação acadêmica, não limitou o universo de sua pesquisa à chamada música de concerto. Ainda no prólogo, pede desculpas ‘‘aos eruditos mais encasacados, cujos cabelos que restam poderão ficar arrepiados diante da simples menção de nomes como Sid Vicious, do grupo punk inglês Sex Pistols’’.
A trajetória de Vicious é lembrada como exemplo extremo do estigma do artista romântico no capítulo ‘‘Eram os Músicos Astronautas?’’. Sid Vicious, escreve ele, ‘‘provocava o público, frequentemente apanhando de um ou outro espectador mais exaltado. Certo dia, ao acordar – e sem se lembrar da noite anterior – deparou-se com o corpo de sua companheira Nancy coberto de sangue. Pouco depois foi encontrado morto por overdose. Sua mãe, que havia mandado cremar o defunto, escorregou com a caixa que continha as cinzas do filho no saguão do Aeroporto de Heathrow, esparramando os restos mortais pelas frestas do sistema de calefação’’.
Do pop ao clássico, o volume passeia por diversos assuntos, alguns espinhosos. Aborda, por exemplo, as máfias encasteladas no meio musical. Tais grupelhos ultrapassariam épocas e fronteiras e se manifestariam através de todo tipo de preconceitos. ‘‘A família Bach (a do Johann Sebastian) era tão numerosa que, entre os séculos XVII e XVIII, havia um protocolo na cidade de Erfurt estabelecendo multa de cinco táleres para quem contratasse um músico que não fosse Bach para festividades e casamentos’’ – conta.
Alguns grupos europeus seriam imbatíveis no campo da segregação sexual funcionando como autênticos clubes do Bolinha. Sir Thomas Beecham, ex-regente da Royal Philarmonic Orchestra, de Londres, teria dito certa vez que ‘‘não aceitava mulheres na orquestra’’. Motivo: se elas fossem bonitas, atrapalhariam os músicos; e se fossem feias, atrapalhariam ele próprio. Em outro capítulo, Autran fala da composição do Hino Nacional Brasileiro.
Salienta que apesar de ter sido escrita mais de uma década antes, a empolada letra de Osório Duque Estrada só seria agregada oficialmente ao Hino em 1922, paradoxalmente o ano da irreverente Semana de Arte Moderna. A letra, observa ele, ‘‘deve ter soado tão contemporânea para os modernistas quanto parecem para os roqueiros dos dias de hoje os acordes das espinetas e cravos da família imperial’’.
Foi também uma letra de música, mas desta feita de apelo popular, que fez o apresentador de TV Flávio Cavalcanti pagar um dos seus micos mais constrangedores. Segundo Autran, o apresentador deliciava-se em encontrar erros nas composições apresentadas em seu programa. Numa noite, esculhambou o compositor paulista Adoniran Barbosa (1910-1982) alegando que o célebre verso ‘‘se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manh㒒 (da canção ‘‘Trem das 11’’), não condizia com a verdade.
Depois de checar, descobriu que havia mais duas viagens, às 11 e meia e à meia-noite. Conclusão de Autran: ‘‘O desastrado e pretencioso rigor científico de Calvalcanti maculou a obra-prima de Adoniran, quebrou o disco e não levou em conta que a história do último trem poderia ser uma simples mentira do filho único mimado para despedir-se da amada e voltar para casa’’.
Algumas páginas adiante, a ênfase recai sobre a complicada relação dos artistas com o poder, pela qual muitos sofreram o diabo enquanto outros curvaram-se à sua proteção. Mozart, Beethoven e Haydn são lembrados como alguns dos gigantes da música clássica que mamaram nas tetas dos soberanos.
O primeiro compôs para a Câmara Imperial de Viena e recebeu encomendas de Leopoldo I. O segundo conviveu com a entourage do Príncipe Lichnowsky, só caindo em desgraça e miséria depois da morte ou abandono de seu mecenas. Haydn, por fim, foi protegido do Príncipe Esterházy, que lhe deu um ‘‘banho de loja’’ após conhecer o talentoso súdito e se decepcionar com sua figura tímida, franzina e quase tísica.
O nobre teria mandado trazer roupa nova, sapatos de salto e peruca para que o maestro se impusesse à altura de sua arte. Depois disso, o compositor passou a exagerar nos cuidados com a aparência mantendo-se sempre garboso com a cabeleira empoada, espada na cinta e sinete na mão. Para completar, sublinha Autran, ele ‘‘dizia não sentir a menor inspiração sem seu anel favorito’’.
Já, pelo lado do poder, D. Pedro I é lembrado como um simpatizante de músicos e compositores. Compôs o ‘‘Hino da Independência’’, além de ter participado regularmente como o primeiro clarinetista da orquestra da Corte. Fascinado pelos profissionais do metiê, não se conteve certa vez ao ouvir queixas sobre as acomodações que lhes eram oferecidas.
Prontamente, transferiu alguns nobres para o andar de baixo do Palácio. ‘‘Aos incomodados’’ – escreve Autran –, ‘‘o Imperador disse que com uma penada fazia um barão, mas nunca um artista’’. Pequena Estória da Música é repleta de passagens similares, quase sempre divertidas e anedóticas. No final do volume, inclui um glossário musical. O lançamento é da editora Irmãos Vitale (tel. 21/521-6276 ou 220-8645), que prepara para agosto um songbook de Elis Regina.

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