Nos bastidores da História
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de março de 1997
Carlos Graieb Agência Estado 
ReproduçãoNa coleta de material para o livro, Bernstein e Politi realizaram mais de 300 entrevistasNa era da fofoca, poucos jornalistas têm-se dado ao esforço de fazer história. Os norte-americanos Bob Woodward e Carl Bernstein são provavelmente a mais ilustre exceção à regra. Desde que desvendaram o escândalo de Watergate, transformando Richard Nixon no único presidente dos Estados Unidos obrigado a renunciar ao cargo, o trabalho da dupla se tornou sinônimo de reportagem investigativa e influência positiva da imprensa na política. Supõe-se que essa seja uma honra maior que a de virar personagem de filme, ainda que os atores responsáveis pela interpretação de Woodward e Bernstein tenham sido Robert Redford e Dustin Hoffman, em Todos os Homens do Presidente.
Vinte anos depois de Watergate, Bernstein volta à carga. Desta vez, a parceria é com o italiano Marco Politi, no livro Sua Santidade - João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo.
Sua Santidade - João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo leva o leitor para dentro do Vaticano. O propósito é revelar as estreitas ligações entre o papa e a presidência Reagan, na luta para derrubar o comunismo. Ligações que deram um toque de guerra santa aos anos finais da Guerra Fria. Na coleta de material para o livro, Bernstein e Politi realizaram mais de 300 entrevistas, falando com personagens como Ronald Reagan e o antigo líder do sindicato polonês Solidariedade, Lech Walesa.
Para ter acesso a material diplomático classificado eles recorreram, nos EUA, à Lei de Liberdade de Informação. Na Rússia, obtiveram minutas confidenciais de reuniões da cúpula do Partido Comunista (documentos que estão entre os mais interessantes do livro). Munidos dessa informação, fizeram de Sua Santidade, ao mesmo tempo, uma biografia de João Paulo II, um documento sobre a história política das últimas duas décadas e, no dizer de Bernstein, uma narrativa dramática.
Aliança O embrião das 591 páginas de Sua Santidade surgiu em 1992, com o artigo Secret Alliance, assinado por Carl Bernstein para a revista Time. O texto tentava provar a existência de um pacto entre Ronald Reagan e João Paulo II, intermediado pela CIA e com o objetivo de minar o poder dos regimes comunistas.
Depois da publicação, Bernstein foi procurado por uma grande editora. A princípio, se recusou a expandir o artigo em livro. Semanas mais tarde, porém, um ensaio de Mikhail Gorbachov sugeria que o Vaticano tivera enorme influência nos acontecimentos que derrubaram o Muro de Berlim. Surgia aí o ponto de vista que comanda Sua Santidade, a saber: qualquer história da Guerra Fria será incompleta sem que se leve em conta o papel de João Paulo II.
Essa perspectiva histórica requereu de Bernstein e seu colaborador, Marco Politi, uma pesquisa em diversos planos. Como era de se esperar, nem sempre o resultado é totalmente satisfatório.
Era necessário, para começar, um retrato detalhado da personalidade de João Paulo II. Mesmo sem ter feito uma entrevista com o papa - que nunca confirmou ou desmentiu publicamente as teses dos jornalistas - os autores foram longe nessa direção. Recolheram depoimentos de amigos de infância e juventude de Karol Wojtyla, bem como de alguns de seus assessores mais próximos. Tocaram assim em pontos-chave, como a formação filosófica humanista do papa, sua oscilação entre posições políticas liberais e uma moralidade conservadora, e a forte veia mística do pontífice. Mas esse último tema, por exemplo, pediria um tratamento mais detalhado da questão religiosa na Polônia. Isso só será encontrado de modo efetivo em outros livros, como o de Tad Szulc (João Paulo II, editora Francisco Alves, 1996).
Pivô A Polônia é, aliás, palco e pivô de grande parte dos fatos narrados. O livro tem grandes achados, como uma cifra redonda (US$ 50 milhões) para a ajuda financeira dos EUA ao Solidariedade, depois que este se tornou clandestino com a imposição da Lei Marcial em 1981. Mas nem todos os aspectos do relacionamento Vaticano-Solidariedade-EUA ficam claros. Até que ponto, por exemplo, o papa compartilhou com o Solidariedade ou as lideranças episcopais as informações que tinha sobre a vinda iminente da Lei Marcial? Acho que o ponto mais importante não é esse e sim a ação do Vaticano e dos EUA para evitar o mal maior, a intervenção soviética, rebate Bernstein.
A menos que Deus esteja de fato nos detalhes, porém, essas são questões secundárias. De modo geral - e apesar do subtítulo pomposo, A História Oculta de Nosso Tempo - Sua Santidade faz justiça às suas pretensões. Em outras palavras, os vínculos que documenta entre a santidade e os poderes terrenos terão de ser levados em conta, por crentes e céticos, em qualquer estudo sério, daqui por diante.


