NORTE DO PARANÁ: uma história, muitos casos
Francelino França
De Londrina
A colonização do Norte do Paraná foi recente e vertiginosa. Colonos de várias partes do Brasil e exterior desbravaram as matas virgens. Nesse tempo, partiam de Minas Gerais centenas de agricultores em busca do novo eldorado. Muitos enriqueceram do dia para a noite. Outros empobreceram da noite para o dia, assombrados pelas geadas.
Esses mineiros eram hábeis em desmatar a região intacta para plantar o ouro verde, o café. Por seu jeito matuto e simplório logo foram nominados de jacus, referência à ave sonolenta e abobalhada. Quem agenciava esses trabalhadores eram os picaretas, sujeitos bons de lábia, que frequentemente ludibriavam os jacus.
Histórias, casos, fatos, foram ouvidos e registrados na memória do escritor e jornalista mineiro Ildeu Manso Vieira, radicado em Mandaguari (a 33 km a leste de Londrina). O legado dos primeiros colonizadores do Norte e Noroeste do Paraná foi transformado num minucioso trabalho de pesquisa, batizado de Jacus & Picaretas A História de Uma Colonização. Além dessas lembranças de Minas, quando chegou a Mandaguari, Vieira mantinha uma coluna no jornal Gazeta Regional, dando início às entrevistas com pioneiros, recolhendo preciosos dados da formação do Paraná.
Mais informações, Vieira conseguiu em suas viagens a todos os municípios paranaenses. O autor resgata os heróis anônimos que realmente construíram mais de 60 cidades, tendo a Cia. de Terras Norte do Paraná e a empresa que a sucedeu à frente.
Dentre as informações garimpadas por Vieira consta que a Cia. De Terras enviava madeiras nobres da região para a construção de barcos de guerra. O lucro da Cia., de certa forma, ajudou a sustentar a Segunda Guerra. Hoje, as idéias ecológicas amalgamadas em todos os cantos fazem com que o desmatamento seja repensado. No período de colonização, o código florestal imposto por Getúlio Vargas dava conta da preservação de pelo menos 10% da mata nativa. O dono da terra desconhecia a legislação e dizimava toda a mata existente. O maior pinheiral de araucárias do mundo, na região de Apucarana, foi completamente destruído.
Mas Ildeu ressalta um aspecto positivo na colonização empreitada pela Cia de Terras, como a distribuição das glebas de maneira racional, evitando a formação de latifúndios. No projeto inicial constavam apenas 4 cidades: Três Bocas (Londrina), Maringá, Cianorte e Umuarama. Cambé, Rolândia e Apucarana eram povoados condenados a fenecer. Pelo espírito empreendedor da brava gente, muitas cidades resistiram.
Com a aquisição da CTNP por brasileiros Grupo Mesquita e Vidigal houve um investimento maciço em tecnologia, sementes de alto padrão, inseminação artificial. Vieira destaca no livro Jacus & Picaretas o caso dos beduínos iraquianos que viriam para a região de Mandaguari. Cerca de 100 mil famílias estavam prestes a se instalar na região, num acerto com a Liga das Nações. O governo Vargas deu um ultimato aos ingleses, privilegiando a colonização germânica e japonesa.
Vieira reflete que toda nossa história fundiária foi problemática. Primeiramente com as Capitanias Hereditárias, logo em seguida com a criação da Sesmaria, doadas aos bajuladores, que formavam feudos, ou latifúndios. Até a época de Getúlio, quando chefiava o Paraná o interventor Manuel Ribas, havia no Estado apenas 29 fazendas. Graças ao movimento de colonização houve uma divisão de terras mais racional.
A passagem da monocultura do café, para a monocultura da soja e gado foi desastrosa, na opinião de Ildeu Vieira. O governo começou a fabricar sem-terras. Assenta 110 famílias e faz surgir 200 e não existe a mentalidade de se fazer uma reforma agrária racional. A solução seria um reforma agrária municipal. Os kibutz de Israel são um exemplo para o mundo, afirma.
Mas o que foi feito dos jacus e picaretas tão importantes para a formação do atual Estado do Paraná? Vieira conta que muitos jacus viraram novos ricos. Os picaretas, como a atividade se extinguiu, acabaram na miséria.
O escritor Ildeu Manso Vieira fará noite de autógrafos do livro Jacus e Picaretas, hoje, na Biblioteca Pública Municipal de Londrina, às 20 horas. O livro pode ser adquirido em Londrina e Maringá nas Livrarias Bom Livro. Preço: R$ 25,00Ildeu Manso Vieira resgata a história de uma região importante do Estado em livro em tom de conversa
Arquivo FolhaOs colonos eram hábeis no desmatamento a ponto de dizimarem as florestas nativas retirando a madeira que era enviada maciçamente à Europa





