NONA ARTE O orgulho de Bagdá
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de junho de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Em 2003, quatro leões famintos escaparam de um zoológico em Bagdá, durante bombardeio estadunidense no Iraque. Para muitos, especialmente o governo norte-americano, a morte dos animais foi apenas mais uma baixa de guerra. Para o escritor Brian K. Vaughan e o ilustrador Niko Henrichon foi a ''desculpa'' perfeita para criticar o conflito por meio de uma fábula moderna.
A história gira em torno do momento em que Zill, o macho alfa; a jovem e fogosa leoa Noor e seu filho Ali; e a veterana e caolha Safa se vêem livres das grades após explosão decorrente de uma bateria de bombardeios ao Iraque. Receoso, o grupo escapa na luta pela sobrevivência e paz.
Ao longo da narrativa, o leitor conhece um pouco mais sobre o difícil passado de Safa, as preocupações de Zill, o temperamento de Noor e as esperanças de Ali. Outros personagens, como pássaros, tartarugas, macacos e um assustador urso estão no caminho da trupe, que precisa primeiro resolver seus próprios problemas antes de pensar em um contexto maior.
O roteiro de Vaughan, elogiado por ótimos trabalhos em ''Y: The Last Man'' e ''Ex Machina'' (ambos devem ser adaptados para as telonas muito em breve) e no material desenvolvido para capítulos recentes da telessérie ''Lost'', consegue usar de metáforas e da zoomorfização (há uma certo moralismo em tratar animais como humanos e vice-versa) para realizar um trabalho sensível sem ser piegas. Os personagens levam a história a um anticlímax chocante.
Já os desenhos de Niko captaram um estilo cartunesco mas não tão infantil - há cenas bastante violentas - e o artista manipulou com propriedade as cores para retratar a inocência e a beleza, que aos poucos vão dando lugar ao drama da guerra. O ilustrador, aliás, usou como referência os relatos e fotos de blogueiros e soldados no Iraque, cidadãos e repórteres que acompanharam o conflito de perto.
Ao final, o que poderia ser simplesmente um ''Rei Leão vai para a guerra'' tornou-se uma das melhores publicações de 2005, inclusive eleito como tal pela revista Entertainment Weekly. Não exatamente pela beleza plástica e sim pela reflexão que promove. Como deve fazer um quadrinho de qualidade.
SERVIÇO
- Os Leões de Bagdá, publicado pela Panini Comics, sai no formato americano (17 x 26 cm), com 140 páginas coloridas e capa dura, a R$ 19,90.


