São Paulo, 01 (AE) - "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", esdrúxula tradução para "Annie Hall", de Woody Allen, é o novo título da coleção Artemídia, da Rocco, uma parceria com o British Film Institute. São pequenos ensaios, dedicados a filmes tidos como clássicos, ou pelo menos marcantes na história do cinema. Em seu texto sobre "Annie Hall", provavelmente o mais "redondo" dos longas-metragens de Allen, o crítico Peter Cowie busca fornecer ao leitor uma boa quantidade de informações básicas. Há, por exemplo, capítulos dedicados às origens do filme, como a paixão do autor por Manhattan, o momento da vida de Allen em que "Annie Hall" toma forma, a recorrência de temas etc. Tudo isso ajuda, se não a entender um filme (nada complicado por sinal), talvez a apreciá-lo com maior riqueza de detalhes e mais profundidade. De qualquer forma, Cowie age mais como repórter dedicado que como analista. Fala dos estereótipos culturais mencionados na história, do universo mental de Allen, esmiuça as razões pessoais para determinadas opções humorísticas etc. Falta, e o leitor vai perceber essa ausência, um pouco mais de análise propriamente cinematográfica.
O ensaio é bem jornalístico, e pouco crítico. Não deixa, contudo, de ser útil aos aficcionados de "Annie Hall". O filme, como se sabe, narra o encontro e posterior desencontro entre o comediante/intelectual Alvy Singer (Allen) e a mais simplória Annie. A história romântica é toda costurada por referências culturais, a começar pelo mito de Pigmalião, com Allen querendo que a companheira se instrua lendo seus livros preferidos - aqueles que têm por tema a morte. Allen faz também seus comentários sobre a oposição entre a costa leste a costa oeste em seu país. Bicho nova-iorquino, abomina o lado oposto, Los Angeles, e não se cansa de fustigar a superficialidade do "outro lado".
No entanto, como se sabe, Allen é um mestre na auto-ironia (a única que conta, afinal, como salvação contra a soberba), o que o coloca na linha humorística dos irmãos Marx, de Georges Kauffman, Mort Sahl. Humor judaico, implacável com os outros, mas sobretudo consigo mesmo. Aliás, a oposição entre o judeu e o goy é recorrência frequente em "Annie Hall", culminando com a cena em que o comediante conhece a família da moça Wasp, branca, protestante, de origem anglo-saxônica, supostamente a elite da sociedade norte-americana.
Felizmente, Cowie lembra-se de citar as inovações formais que ajudam a fazer de "Annie Hall" um filme invulgar. Por exemplo, a divisão da tela em duas, vendo-se Allen de um lado, Diane Keaton, de outro, cada qual com seu analista. O diretor disse que considerava essas "sessões paralelas" uma boa maneira de mostrar ao espectador a relatividade dos pontos de vista sobre algum fato - no caso, o relacionamento sexual entre os dois.
Finalmente, "Annie Hall", apesar de tantas referências diretas à biografia de Allen, parece exemplo perfeito de como a realidade factual, impositiva, passa para o plano da arte: convenientemente distorcida e sublimada, quando não aperfeiçoada. O próprio Allen define essa relação, a seu modo: "Eu detesto a realidade. Mas, conforme você sabe, é o único lugar no qual você pode encontrar um bom filé para o jantar".

mockup