Em agosto de 1953, o escritor norte-americano Jack Kerouac voltou para a casa da mãe após um temporada em São Francisco. Voltou cansado. Acabado pelas bebedeiras e com o coração dilacerado. Trancou-se no quarto e, após três dias e três noites, saiu com os manuscritos datilografados do romance "Os Subterrâneos".

Jack Kerouac:  em 'Os Subterrâneos', o autor mistura relatos, diálogos, fluxos de consciência, imagens, ideias e tempos diferentes num mesmo parágrafo
Jack Kerouac: em 'Os Subterrâneos', o autor mistura relatos, diálogos, fluxos de consciência, imagens, ideias e tempos diferentes num mesmo parágrafo | Foto: Reprodução/ Acervo Jack Keroauc



Fiel à missão de não separar vida e literatura, Jack Kerouac logo nas primeiras palavras do livro deixava claro suas intenções: "Naquele tempo eu era moço e era muito mais orientado e sabia falar sobre qualquer assunto com inteligência nervosa e com clareza e sem preâmbulos literários como este; em outras palavras esta é a história de um homem autoconfiante, e ao mesmo tempo de um egomaníaco, naturalmente, não adianta bancar o engraçadinho, melhor começar do começo e deixar a verdade vazar aos poucos... Vou começar a história dos subterrâneos de São Francisco."

"Os Subterrâneos" é o melhor retrato do universo beatnik em estado puro e genuíno, antes dele se transformar em movimento literário e movimento cultural. A expressão da busca pela santidade na vida subterrânea onde o homem pode ser livre em sua máxima potência. Tudo antes da publicação de "On The Road" ocorrida apenas em 1957.
O romance chegou no Brasil em 1984 publicado pela editora Brasiliense e agora volta às livrarias com uma nova edição lançada pela editora L&PM com a mesma tradução realizada pelo poeta Paulo Henriques Brito.

"Os Subterrâneos" narra a ascensão e queda do amor entre Leo (alter-ego de Kerouac) e Mardou, uma jovem negra de sangue indígena. Uma relação amorosa totalmente livre que se transforma num triângulo amoroso envolvendo o intempestivo Yuri (personificação do poeta Gregory Corso). Na história ainda entram Adam (figura de Allen Ginsberg) e Larry (representando Lawrence Ferlinghetti). Personagens que vivem vagando por bares, apartamentos e lugares 'undergrounds' fora da rota da grande maioria das pessoas. Personagens com ideias loucas e visionárias que se jogam na vida sem rede de segurança. Figuras que se atiram à existência com plenitude sem colete salva-vidas.

O romance é o melhor exemplo da linguagem literária desenvolvida por Kerouac que passaria a ser chamada de "prosódia bebop". Um fluxo narrativo, em forma de jorros verbais, que apresenta longas frases com ausência de vírgulas e pontos. Uma narrativa que mistura relatos, diálogos, evocações, reflexões, fluxos de consciência, imagens, ideias e tempos diferentes num mesmo parágrafo. A intenção do escritor era levar para a escrita a mesma pulsação do bebop jazz criado por Charlie Parker (1920 - 1955) e Dizzy Gillespie (1917 - 1993).

Filho de imigrantes franco-canadenses, Jack Kerouac nasceu em 1922. Ao lado de Allen Ginsberg (1927 - 1997) e William Burroughs (1914 - 1997) criou as bases da Literatura Beat, movimento nascido de forma espontânea que influenciou a arte florescida na década de 1960, principalmente a cultura do rock. Faleceu em 1969, aos 47 anos, vítima do consumo excessivo de álcool.
"Os Subterrâneos", aos olhos de hoje, revela que não é possível assumir novas posições diante da vida sem uma vida nova. E que o conservadorismo nada mais é do que uma busca pela segurança estável, certa e imutável - algo que pode se revelar o oposto da vida, sempre naturalmente instável, imprecisa, insegura e mutante.
Pensamentos luminosos são mais visíveis na escuridão da noite.


Imagem ilustrativa da imagem Noites escuras para pensamentos luminosos
| Foto: Divulgação



Serviço:
"Os Subterrâneos"
Autor - Jack Kerouac
Editora - L&PM
Tradução - Paulo Henriques Britto
Páginas - 120
Quanto - R$ 21,90

Fragmento

Rapidamente mergulhei, mordi, apaguei a luz, escondi meu rosto envergonhado, fiz amor com ela tremendamente por causa da carência de amor há um ano quase e a necessidade me empurrava para o chão - nossos pequenos acordos no escuro, coisas que no duro não deviam jamais ser ditas - pois foi ela que disse depois "Os homens são tão malucos, querem a essência a mulher é a essência, lá está ela bem nas mãos deles mas eles saem correndo construindo grandes estruturas abstratas" - "Você quer dizer que eles deviam ficar em casa com a essência, ou seja passar o dia inteiro deitados à sombra de uma árvore com a mulher mas Mardou isso é uma velha ideia minha, uma ideia linda, eu nunca ouvi ninguém exprimir ela melhor e nem sonhei" - "Em vez disso eles saem por aí correndo e ficam achando que a mulher é um prêmio e não um ser humano, ora cara eu posso estar metida nessa merda também mas eu não tenho nada a ver com isso".

(Fragmento de "Os Subterrâneos", de Jack Kerouac)

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