Noites de vinho e canções
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de março de 1997
Wilson Bueno Especial para a Folha 2 
Foram onze dias em que Curitiba, mais uma vez, se converteu na capital do teatro brasileiro, graças a esta sexta edição do FTC, evento já integrado ao calendário cultural não só da cidade mas sobretudo do país - o que atesta, sem sombra de dúvida, a sua maior marca - a de se constituir em referência nacional desta arte generosa e tantas vezes ultrajada pela incompetência, o engodo, as munhas & mumunhas do narciso mais chapado.
Nas praças, nas ruas, nos espaços culturais da city o que se viu e ouviu na última semana e meia foram as coisas & loisas afetas à arte que nos deu Eurípedes e Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues - ecoando patropi a fora, a graça, a alegria e o engenho do gênero humano sobre um palco.
Dispensável lembrar que o Festival de Teatro de Curitiba deva continuar, não interrompendo e nem sendo interrompido pelos humores dos poderes oficiais de cada dia, a exemplo de outras iniciativas culturais empreendidas no Paraná e logo destruídas, pela via do rancor e do ressentimento políticos da hora. Quando não, tendo como único motivo, a pequenez velhaca de mediocrões paranistas...
Quem teve a pachorra de me acompanhar, cá nesta folha de jornal, as criticações obsessivas, se isento há de ter notado que o objeto das apreciações deste escriba que vos fala nunca foi além da obra em cena e do trabalho de seus protagonistas. É que lidar com os desafetos (pessoais) do momento parece o vício e agrura de um criticismo de viés - do qual não estamos isentos aqui ou alhures. O que, claro, trata-se de pura perversão - no sentido mais clínico da palavra.
Do decepcionante Um Moliere Imaginário que abriu o Festival, dia 13, na Ópera do Arame (revelada, ainda uma vez, embrulho de luxo envolvendo produto ordinário, verdadeiro elefante branco e, sem dúvida, o mais ineficiente e horrendo espaço teatral do país) ao teatrão correto de Eduardo Tolentino, na peça de Domingos de Oliveira, tendo à frente do elenco a impagável Beatriz Segall - Do Fundo do Lago Escuro - atrapalhadamente estreada com um dia de atraso no Fernanda Montenegro, e que encerrou o Festival, o que vimos e vivemos foi a inquietação, a busca, as aflições e epifanias de artistas e público - uns e outro abraçados à grande arte, num contraste gritante frente a estéril ambiência cultural do país de Fernando Henrique Cardoso.
Pasme, atento leitor, pasme: foi uma média de três espetáculos diários, sem contar os eventos paralelos e as encenações de rua, ocupando os melhores (e piores) teatros da cidade, movimentando centenas de pessoas - das ocupadas com a infra-estrutura do evento às grandes estrelas, que se não brilharam de todo no palco, conseguiram, ao menos, conferir aos points da moda na city, uma cintilância desusada. Haja Narciso & Purpurina. Além, claro, das (saudáveis) noites etílicas discutindo os rumos da estética universal, o que resulta invariavelmente pífio mas será sempre um exercício de inteligência, e gozo legítimo das coisas do espírito.
Levianamente, já que seria impossível assistir a todos os espetáculos levados à cena em onze dias, ainda que tenha visto a maioria, eu elegeria, sem hesitar, Senhorita Else, assinado pelo grupo paulista Razões Inversas, como o melhor desta sexta versão do Festival de Curitiba e colocaria junto, como absoluta, solitária e olímpica revelação de atriz - a notável Debora Duboc, da mesma Senhorita Else que, em duas noites, no palco do Guairinha, nos deu inesquecível lição do melhor teatro. Leviano, repito, o que não impede contudo que se destaque de modo veemente o grupo paulista.
Zero à esquerda seria meu insensato voto a todos aqueles que não sabendo onde cante o galo, lançaram-se ao palco como se espaço inaugural de suas altissonantes mediocridades - numa exibição palhaça do novo, como se o novo fosse só uma inconsequência. A exemplo das execráveis Opus Profundum e Perpétua - ambas do ridículo Dionísio Neto. Para quem pensa que, com isso, execro junto o gênio de Gerald Thomas, está redondamente enganado. Este mostrou, mais uma vez, com os Reis do Iê-Iê-Iê, que segue sendo o mais instigante encenador brasileiro.
Entre mortos e feridos, como na piada antiga, salvaram-se todos. E para os que acharam que Alberto Guzik deveria ter Um Deus Cruel, de sua autoria, ausente do Festival, já que foi um dos curadores da mostra, nossos pêsames - não entendemos, a não ser por provincianismo atroz & congênito, por quê deveria ser penalizado. Jorge Luis Borges, o mais importante escritor deste século, quando convidado a editar a extensa, e rigorosa, Biblioteca de Babel, aceitou, desde que uma de suas obras fosse o segundo título da coleção. O que resultou no melhor livro de todos os editados.
Não é o caso de Alberto Guzik evidentemente mas revela que Narciso pode ser um deus brincante, desde que visto um pouco além de suas manhas.
Wilson Bueno, escritor, é autor, entre outros livros, de Mar Paraguayo (Iluminuras), Cristal (Siciliano) e Pequeno Tratado de Brinquedos (Iluminuras). Escreve, às sextas-feiras, no suplemento Folha Viva Curitiba.


