Noite pop na pedreira
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segunda-feira, 03 de novembro de 1997
Dary Júnior Curitiba 
Fotos: Marcelo AlmeidaDavid Bowie, a principal atração do evento, interpretando 7 years in TibetUma máquina do tempo desregulada que ironicamente funcionou bem. Assim pode ser definida a passagem curitibana do festival Close-Up Planet, que levou mais de 10 mil pessoas à Pedreira Paulo Leminski, na última sexta-feira. Com trajetórias em estilos (dance, rock, ska e pop) e épocas (dos anos 60 aos 90) bem-definidos, Erasure, Rita Lee, No Doubt e David Bowie mostraram que as diferenças são saudáveis e podem conviver harmonicamente no mesmo espaço.
Em clima de matinê de discoteca, a dupla Erasure abriu o festival às 17 horas. O tecladista Vince Clark e o vocalista Andy Bell não se abalaram com a má regulagem do som e o pouco público, então restrito a menos de mil pessoas. Foram 55 minutos de sucessos, principalmente antigos, como A little respect e Stop. Homossexual assumido e carismático, Andy desmunhecou à vontade e até inseriu um trecho do hino gay I will survive, consagrado por Gloria Gaynor, em Love do hate you.
Andy Bell,
do Erasure:
apologia ao
homossexualismo
Após a lembrança do final dos anos 80, chegou o momento de curtir quem construiu sua carreira na década anterior. Única atração brasileira do Close-Up Planet em Curitiba, Rita Lee entrou no palco às 18h40. De fraque e cartola, a tia dorocknacional não precisou fazer mágica para cativar a platéia de maioria adolescente. Bastaram canções com guitarras pesadas e breves discursos politicamente corretos - a favor do aborto, contra a violência policial e pelo uso da camisinha.
Acompanhada por uma banda de sete músicos, Rita Lee agradou. A galera teve o ego massageado com Normal em Curitiba. Destaque ainda para a recente Obrigado, não e a clássica Jardins da Babilônia. O mais velho dos três filhos da cantora, Beto, deixou claro que o discurso da morte do rock não resiste a três acordes de guitarra. O marido, Roberto de Carvalho, ensinou à moçada presente como se é virtuoso com paixão. Ambos deram a retaguarda para a tia reger o público até debaixo de chuva, como aconteceu em Mania de você.
Rita Lee cativou a platéia de maioria adolescenteBowie ainda é e deve ser por muito tempo a cara da música pop internacional
Os 50 minutos doshow de Rita Lee foram uma espécie de aquecimento de luxo para o público, a esta altura em torno de 5 mil pessoas. Às 20h10, começou a apresentação do conjunto norte-americano de ska No Doubt, sensação dos anos 90. A vocalista Gwen Stefani parecia ter bebido uma mistura de cerveja preta, ovo de codorna, guaraná em pó e amendoim, tamanha sua energia no palco. O alto astral e o som vibrante lembram os Paralamas do Sucesso, com a diferença de que o Herbert Vianna não deve ter um umbigo como o da cantora mais aeróbica do Close-Up Planet.
O repertório se baseou nas canções bem-sucedidas do terceiro disco do grupo, Tragic Kingdom. Foi difícil encontrar alguém sem pular em Just a girl. Mãos dadas e isqueiros acesos acompanharam a balada Dont speak, sobre o ex-relacionamento de Gwen com o baixista Tony Kanal. O No Doubt ainda homenageou o Sublime - o vocalista, Brad Nowell, morreu de overdose de heroína em 1996 - com DJs. A festa só acabou depois de 1h15 de show, com uma versão longa de Sunday morning.
Divisão - Eram 22h10 quando o palco foi tomado por David Bowie, a principal atração do festival. Na batalha desde os anos 60, ele frustrou quem esperava ouvir clássicos como Heroes e Starman. Em sintonia com a onda tecno, o artista inglês baseou o repertório em Earthling, seu último trabalho. O público se dividiu. Uns, mostraram as coreografias típicas de clubber. Outros, ficaram parados para assimilar melhor o forte apelo visual do show.
Só com Bowie as 19 toneladas de equipamentos de som e luz disseram a que vieram. Músicas com dezenas de batidas por minuto, como Telling lies, foram ilustradas pelas imagens projetadas na imensa cortina do fundo do palco. Cenas reais e virtuais criaram um painel onírico, necessário para o turbilhão de cores e formas levar os espectadores à verdadeira dimensão da obra do cantor. Essa viagem foi explicitada com 7 years in Tibet, da trilha sonora do filme homônimo.
As concessões foram poucas, porém boas. Under Pressure, The man who sold the world - gravada até pelo Nirvana - e Superman, que teve os vocais divididos com a baixista Darcy. Ao final do show, que durou quase duas horas, o público se retirou com uma certeza: David Bowie já teve várias faces (Major Tom, Thin White Duke e Ziggy Stardust, por exemplo), mas ainda é e deve ser por muito tempo a cara da música pop internacional. Eis um cinquentão em dia com seu tempo.


