Noite de prêmios em Veneza
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de setembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha2 
Num ambiente já sensivelmente esvaziado - a imprensa européia assiste a cerimônia de encerramento ao vivo pela tevê, nos países de origem -, o Festival de Veneza encerrou sua débil mostra competitiva. Hoje à noite o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri, anuncia os vencedores em cerimônia conduzida pela atriz russa Tzenia Rapaport. Ontem, último dia de exibição dos concorrentes, o clima de perplexidade diante do panorama que se instalou no Lido desde as primeiras jornadas era o mesmo. Desolador.
O quarto e último título italiano, ''Il Seme Della Discórdia'', foi a culminância de uma comédia de equívocos - melhor seria: da ópera bufa - patrocinada pela comissão de seleção. E o filme em questão era afinal de contas uma comédia. Ou deveria ser. ''O Sêmen da Discórdia'' (o título já antecipa tudo) é um filmezinho de categoria inclassificável. Mulher bela e fértil (Caterina Murino) aparece grávida de marido infiel e estéril (Alessandro Gassman - saudades do pai, Vittorio, de quem o filho somente herdou o sobrenome famoso) vendedor de fertilizantes agrícolas. Ela não sabe, mas o filho, na verdade, é de um segurança da loja de confecções dela. Como isto foi possível? Claro, ele se aproveitou de um desmaio dela, depois de atacada por dois ladrões e então...
O resultado é canhestro, pífio, constrangedor, particularmente vergonhoso por ter sido patrocinado pela curadoria do festival.
The Wrestler (O Lutador), título made in USA que fechou o pacote de candidaturas às premiações diversas, reabilita para o cinema o diretor Darren Aronofsky e também Mickey Rourke, renascido inteiro como ator, apesar das transformações físicas e psicológicas.
Rourke faz o personagem-título, chamado Randy ''The Ram'' Robinson, velho e teimoso guerreiro, agora pouco resistente para as disputas. Vinte anos depois de seu apogeu nos ringues, ainda vive da pancadaria. O rosto e o corpo castigados são um mapa eloquente desta vida de excessos que incluem um letal coquetel de drogas. E continua até sofrer um enfarte. Se recupera, mas não sabe fazer outra coisa, embora tente trabalhar como balconista de produtos de alimentação. Sozinho, se relaciona fragilmente com uma stripper quarentona (uma corajosa Marisa Tomei). Tem uma filha adulta que abandonou quando pequena e de quem quer se reaproximar. Um dia recebe proposta irresistível: uma luta revival contra velho adversário. Não sabe sobreviver longe das quatro cordas e do público que ainda o idolatra.
Wrestler, para quem não sabe, é o lutador de combates fake, entretenimento popular no qual musculosos contendores em roupas extravagantes se espancam num faz-de-conta que leva legiões de fanáticos à loucura. No Brasil, historicamente, tivemos a geração do ídolo Ted Boy Marino nos anos 60 e 70, que divertia garotos e adultos na tevê pioneira com o programa ''Tele Catch''. Recentemente o cinema mostrou a comédia ''Nacho Libre'', com Jack Black vivendo um desses wrestlers.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.


