São Paulo, 28 (AE) - João Ubaldo Ribeiro desfaz algumas mentiras oficiais sobre ele e sua obra. Ao comentar a estréia do filme "Sargento Getúlio", adaptado do seu livro, uma revista de grande circulação nacional explicou as tiradas glauberianas do filme dizendo que era um projeto do próprio Gláuber Rocha e disse mais, que Ubaldo não achava decente, para um pai de família, ser um escritor. Se pudesse seria outra coisa. "Estou muito satisfeito com minha literatura", diz o escritor, que é cronista do jornao "O Estado de S.Paulo", aos domingos. "Além do mais, estou muito velho para pensar em mudar". Quanto a Gláuber, nega que alguma vez o cineasta baiano tenha manifestado interesse por "Sargento Getúlio". "O Gláuber só gostava dos argumentos originais dele", ressalta.
Ubaldo autografa amanhã (29) a edição dos Cadernos de Literatura Brasileira. O evento ocorre a partir das 19 horas no Espaço Unibanco de Cinema, na Rua Augusta. Às 20 horas, será projetado o filme "Sargento Getúlio", seguindo-se um debate com o escritor e o diretor Hermano Penna, com mediação da jornalista e crítica de cinema Maria do Rosário Caetano. Numa entrevista pelo telefone, Ubaldo diz: "Enganaram-me". É avesso às badalações, tipo noite de autógrafos. Mas estará no evento de amanhã à noite, garante.
É o sétimo número dos Cadernos de Literatura Brasileira, publicação semestral do Instituto Moreira Salles que aborda a vida e a obra de um importante escritor nacional. "Está muito bonito", diz Ubaldo. Um texto inédito sobre a ilha de Itaparica
onde ele nasceu, e a reprodução das páginas da única cópia do datiloscrito do romance "Viva o Povo Brasileiro" são alguns dos destaques da edição. Mas Ubaldo faz a ressalva: "Não há destaques na edição, ela está toda muito bem trabalhada e os textos e as fotos se equivalem".
O texto sobre Itaparica ele explica dizendo que lhe pediram alguma coisa inédita e era o que ele tinha. Viaja nas lembranças, falando sobre a Itaparica das suas experiências e memórias pessoais. Ele sempre achou que não era preciso submeter-se ao pitoresco para fazer literatura brasileira, mas escreve sobre a Bahia porque nasceu lá. "Não vou escrever sobre Paris", gosta de dizer. Também diz que a literatura é parte "da expressão de um povo". A dele, com certeza, é. Um livro como "Viva o Povo Brasileiro" tenta decifrar o enigma chamado Brasil, sendo uma maneira de encarar como o dominador encara o dominado. Há tempos o cineasta André Luiz de Oliveira (de A Lenda de Ubirajara e Louco por Cinema) acalenta o projeto de filmar o livro. "O projeto continua de pé", esclarece Ubaldo.
Publicado em 1971, "Sargento Getúlio" foi o segundo romance de Ubaldo. Além das sucessivas edições no Brasil, foi publicado na França, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Estados Unidos e Finlândia. Um grande sucesso nacional e internacional que motivou o filme de Hermano Penna, servido por uma interpretação memorável de Lima Duarte. Ubaldo gosta do filme. Não faz reparo algum, seja à adaptação ou à interpretação de Duarte. Seu pai era um político de Aracaju, Ubaldo cresceu vendo esses "sargentos" que frequentavam sua casa.
O personagem-título é um sargento a quem um cacique político sergipano encarrega de transportar um preso político. No meio do caminho, vem uma contra-ordem. "Levo ou não levo", passa a ser a divisa de Getúlio. Pode-se identificar nela ecos do famoso "ou não ser" proferido por um certo príncipe dinamarquês.
Com fotografia do grande Walter Carvalho (feita originalmente na bitola de 16 mm e depois ampliada para 35 mm), "Sargento Getúlio" pega o personagem no momento em que as contra-ordens o levam a fazer o que nunca havia feito antes, na vida: elas despertam em Getúlio a reflexão e a dúvida. A certa altura de "Viva o Povo Brasileiro", um personagem afirma: "Olhe, eu sempre disse a todos os negros, a todas as negrinhas como tu, que a única coisa a aprender é a obediência". Essa obediência é responsável em grande parte pela tragédia brasileira. A submissão do dominado ao dominador. Contra ela Ubaldo se insurge em sua literatura. O filme de Hermano Penna, também. "Sargento Getúlio" tem uma força épica rara na produção nacional. (L.C.M.)

mockup