Noel transformou o samba em música nacional
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 20 (AE) - Queixinho - era o apelido que tinha Noel Rosa no Colégio São Bento. O que não pode ter sido fácil, para o adolescente. Em compensação, Noel era o melhor bandolinista (aprendeu de ouvido, aos 13 anos) e violonista (trocou o bandolim pelo violão, dois anos depois) da turma. Era seresteiro do bairro, tocando com o irmão.
Colegas de escola e vizinhos de Vila Isabel formaram o conjunto Flor do Tempo, que tocava em festas de família. Noel era um dos integrantes. O grupo mudou de formação e nome - para Bando dos Tangarás - e foi convidado a gravar. Além de Noel, participavam Braguinha, Almirante, Alvinho e Henrique Brito.
Noel tinha 20 anos quando gravou o primeiro grande sucesso, o samba "Com Que Roupa?". A música foi usada no repertório de vários musicais (dando, até mesmo, nome a um deles
assinado por Luís Peixoto). No início dos anos 30, compôs uma penca de músicas antológicas: "Feitio de Oração" (com Vadico), "Até amanhã", "Fita Amarela", "Onde Está a Honestidade", "O Orvalho Vem Caindo" (com Kid Pepe), em 1933; "Feitiço da Vila" (1934) e "Conversa de Botequim" (1935), as duas com Vadico, para lembrar poucas.
A questão do queixo defeituoso esteve sempre presente. Num samba da polêmica com Wilson Batista, Noel foi chamado de "Frankenstein da Vila". Mas Noel era um boêmio adorado pelas mulheres (e nunca as deixou, apesar de um casamento que, naturalmente, resultou fracassado), admirado pelos homens, bem-vindo em todas as rodas, bem-sucedido em várias atividades, querido, admirado. Sucesso em vida, na curta vida. Os dramas não são mais importantes do que a música genial que compôs nos poucos anos de atividade.
No entanto, dependendo de como se aborde sua vida, ela pode ser um dramalhão. E a questão de um musical tendo Noel como assunto é essa: é a música ou a desgraça o assunto central? Há pouco tempo, a televisão resolveu contar a vida de Chiquinha Gonzaga. Conseguiu fazê-lo quase sem tocar música de Chiquinha Gonzaga. Assestou as luzes sobre dramas pessoais, escândalos, tristezas, tragédias.
Noel precisa ser lembrado como um dos maiores compositores da música brasileira, o gênio que tornou o samba música nacional, o cronista de sua cidade e seu tempo, o poeta que impôs a linguagem coloquial ao canto popular. É um fundador. Se a peça "Noel - Feitiço da Vila" seguir essa linha, estará prestando grande serviço à cultura.


