NOEL ROSA POR COMPLETO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Falta um mês para o Natal, mas o maior presente que a memória musical brasileira poderia receber na temporada será empacotado e colocado já esta semana nas vitrines do país.
Com uma tiragem inicial de 3 mil exemplares, a coleção Noel Pela Primeira Vez chega ao público trazendo 229 músicas do compositor carioca Noel Rosa (1910-1937), todas em suas primeiras gravações.
O pacote, que reúne 14 CDs, é fruto de uma parceria entre a gravadora Velas, a Funarte e o idealizador do projeto Omar Jubran. A distribuição ficará por conta da Universal Music. Um livreto de 160 páginas acompanha o material apresentando todas as letras, ficha técnica detalhada de cada gravação, informações complementares sobre as músicas e as circunstâncias de sua criação e até um glossário com expressões comuns da época.
O texto de abertura é de João Máximo, co-autor do volume Noel Rosa Uma Biografia, publicado em 1990 pela editora da UNB. Os discos trazem as faixas distribuídas em ordem cronológica, o que permite examinar a evolução de Noel como compositor, de suas primeiras letras de temas caipiras aos sambas de morro e posterior refinamento do gênero.
Ele era um compositor multifacetado. Podemos observá-lo ao longo de sua obra encarnando o romântico, o irônico, o satírico, o machista e o feminista. Nos tipos que criou, vemos verdadeiras crônicas sociais cariocas. Ele foi um repórter do Rio de seu tempo diz por telefone Omar Jubran, o responsável pelo resgate.
Noel Rosa passou praticamente toda a vida adulta na boemia. De tanto varar madrugadas, contraiu tuberculose, que o levou a nocaute aos 26 anos. Na época, os cassinos e os dias gloriosos da malandragem de terno branco resistiam num Rio de Janeiro mítico. Nesse ambiente ainda cordial, ele correu atrás de rabos de saias que o desprezaram, torrou com amigos o dinheiro que não tinha, brigou e criou suas obras-primas virando copos ao lado de Aracy de Almeida (sua intérprete favorita).
Aracy é privilegiada na coleção de CDs disputando a maioria das faixas com o próprio Noel e nomes como Francisco Alves, Silvio Caldas, Mário Reis, Orlando Silva, Pixinguinha e outros ilustres da época de ouro da música popular brasileira. Entre as raridades consta uma música recuperada a partir de um disco de 78 rotações quebrado em três pedaços.
Jubran, que dedicou os 13 últimos anos na pesquisa e organização do acervo, não revela o nome da faixa preferindo desafiar os ouvintes a descobri-la. É que o trabalho de restauração ficou impecável explica ele. A música, de três minutos de duração, tomou-lhe 30 horas de meticuloso manuseio recorrendo a uma lupa para casar os sulcos.
Mas essa foi apenas uma das proezas do pesquisador, que ganha a vida como professor de Biologia. Para reunir a obra integral de Noel, Jubran vasculhou sebos, gravações em emissoras de rádio e coleções particulares centrando a caça em cidades do Rio, São Paulo e Minas Gerais. Seu guia foi a já citada biografia de Noel, que trazia a lista completa de todas as composições do autor de Último Desejo.
Das 259 composições relacionadas, Jubran desencavou 228, já que as linhas melódicas das 31 restantes se perderam. As letras dessas canções, porém, entraram no encarte. Constatei que eu já tinha 70% desse repertório. Aí decidi ir atrás dos 30% que faltava conta ele. À medida que conseguia o material, ele ia já fazendo o trabalho de restauração no estúdio que montou em sua casa, o que lhe custou um carro.
Uma parte do equipamento foi comprada com a ajuda de amigos, aos quais propôs a aquisição antecipada da coleção de Noel para ajudá-lo na empreitada. Todo o processo de remasterização das gravações foi executado solitariamente com a preocupação de não corromper a sonoridade original. É até fácil tirar os chiados nota ele. O problema é que, na limpeza dos ruídos, pode se apagar também um instrumento. Procurei me ater a esses detalhes para conservar a autenticidade do som da época.
Tanto preciosismo o levou a buscar sempre os originais, dispensando discos já reprocessados em LP ou CD. A maioria das músicas foi colhida a partir dos bolachões, seguida de um número menor de programas de rádio. Curiosamente, algumas composições foram extraídas de gravações recentes por terem permanecido inéditas durante décadas.
Dessas, entraram até gravações feitas nos anos 80 e 90. Em 1992, a rádio Cultura de São Paulo transmitiu uma série de 33 programas sobre Noel, durante a qual 15 composições foram tiradas do ineditismo, entre elas paródias radiofônicas e sambas como Não Morre Tão Cedo, Marcha da Prima...Vera, Vou te Ripar, Faz de Conta que Eu Morri e Amar com Sinceridade. São dessa fornada, por exemplo, as canções interpretadas por Vânia Bastos, Ná Ozetti e Eduardo Gudin.
A pesquisa está sendo recompensada agora. O trabalho foi concluído há dois anos, quando Jubran deixou nove CDs prontos, que por questões de direitos e mercado a Velas os transformou em 14. Feito o serviço, ele não correu atrás das grandes gravadoras. Não me iludo. Desde o começo sempre achei que a iniciativa deveria partir de alguma instituição oficial, que não visa retorno financeiro. As gravadoras não estão interessadas em música, mas em vendagens que atingem 1 milhão de cópias sublinha.
O contrato foi fechado com a Funarte (responsável pela sua remuneração) e o Ministério da Cultura. Na Velas, o projeto foi coordenado por Claudiney Ferreira e Luiz Pedreira. A gravadora vai ser responsável pela administração dos direitos da coleção. Jubran conta que já tem mais projetos engatilhados: um dedicado a Ary Barroso, outro a Adoniran Barbosa e mais outro a canções de carnaval. O preço do pacote deve ficar em torno de R$ 200,00.


