Escolhido para a abertura do Festival de Cannes, em maio deste ano, ''Ensaio sobre a cegueira'' (Blindness), do diretor brasileiro Fernando Meirelles, estréia amanhã no circuito nacional. Adaptação da obra do prêmio Nobel, José Saramago, o filme cumpre bem sua missão de transpor para a tela a história da avassaladora epidemia de cegueira branca e suas consequências.
A adaptação de uma obra literária para as telas é sempre um risco. Quando trata-se de vencedor do prêmio Nobel e um dos mais aclamados escritores em língua portuguesa, o desafio é ainda maior por conta da expectativa gerada em torno da produção. A empreitada torna-se mais arriscada se levarmos em conta que as personagens sequer têm nome, foram privadas da visão repentinamente e, em geral, têm como único elo o fato de compartilharem o desespero pela sobrevivência no caos.
Outro complicador de levar para as salas de cinema o ''Ensaio sobre a cegueira'' é transmitir para o público a mesma intensidade com que o autor coloca a questão da precariedade em que se encontram as personagens depois de acometidas pela doença. Além disso, a linguagem de Saramago tem um peso muito grande na forma como a trama é passada ao leitor, a pontuação é mínima e a história vai sendo contada numa enxurrada de palavras.
Nas telas, o ritmo da narrativa é de certa forma mantido, pelo menos até a saída do grupo de personagens centrais do local de confinamento para o qual eles são levados de início. Daí em diante o filme pula algumas passagens do livro. No elenco, estão atores já bem conhecidos do público, como Julianne Moore, Gael García Bernal e Danny Glover, além da brasileira Alice Braga, de Mark Ruffallo e de Don McKellar, que também assina o roteiro.
Para quem leu a obra, a adaptação se apresenta bem fiel ao texto, sem muitas modificações em relação ao que o autor quis mostrar. Para quem não conhece a história, se deparar com ela assim numa telona pode causar impacto. Nas primeiras exibições que o diretor fez para públicos de teste, alguns espectadores deixaram a sala em cenas mais fortes, o que motivou Meirelles a alterar a edição das imagens. A versão que chega a nós, ainda que não seja mais tão explícita, não é menos verdadeira. Portanto, ter diante dos olhos toda a barbárie de que o homem é capaz em situações de privação pode ser chocante para o espectador mais desavisado.

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