No universo do faz-de-conta
Simone Mattos
Era uma vez um contador de histórias... Quem na infância não ouviu uma fábula narrada por avós, pais, tios ou professores? Há séculos que a imaginação das crianças vem sendo povoada por fadas, lobos, princesas e bruxas. No final do milênio, ao contrário do que muitos imaginam, a mais encantadora das profissões não está ameaçada de extinção.
Além dos contadores anônimos, somente em Curitiba há cerca de dez profissionais que dedicam boa parte de suas vidas às histórias infantis. Um deles, Carlos Daitschman, que trabalha para a Fundação Cultural de Curitiba em projetos que atendem a crianças em hospitais e periferias, trabalhadores e idosos, entre outros, explica que a importância das fábulas vai muito além do entretenimento.
As crianças captam tudo, pois têm um mundo aberto, sem couraças. E este mundo fala pelas histórias, entra por elas. Há o Patinho Feio, por exemplo, que a própria mãe diz vá embora; há João e Maria, que pela miséria da família são abandonados pelos pais na floresta. Estes medos todos nós sofremos e as histórias mostram que eu não sou o único, há outros patinhos feios. É por isso que as crianças pequenas pedem para contar outra vez, até que a história esteja inteira dentro delas, até que o lobo esteja bem morto e o patinho tenha virado cisne...
Quantas histórias existem em seu repertório?
Carlos Daitschman - Impossível dizer.
Como você memoriza todas elas?
Carlos Daitschman - Até hoje não inventaram nenhum chip capaz de armazenar tanto como a alma humana. Em cada célula de nosso corpo está toda a história da humanidade, por isso, quando ouvimos alguém contando algo, imediatamente dizemos: essa história tem a ver comigo, eu faço parte dela.
Quais são as histórias mais pedidas pelas crianças?
Carlos Daitschman - Chapeuzinho Vermelho é a campeã de audiência. Os Três Porquinhos, Cinderela, Branca de Neve e as histórias de terror em geral também são muito solicitadas.
Você também cria histórias?
Carlos Daitschman - Não, mas tenho muitas sobre o que eu tenho vivido como contador.
Conte uma delas.
Carlos Daitschman - Eu estava no Hospital de Clínicas, na área de Neoplasia, onde havia muitas crianças com câncer, naquele ambiente de remédios, medo e dor. Num local improvisado, no corredor, foram colocados alguns bancos, onde parecia impossível contar uma história. Lembro que havia uma garota num carrinho, de cabeça baixa, que não queria ouvir nada. Quando eu comecei a narrar, ouvi uma gargalhada... Ela estava sentada no carrinho, com os olhos abertos e brilhantes. Foi um presente para mim.
Você acha que faltam contadores de histórias?
Carlos Daitschman - Todos nós somos contadores de histórias. O que falta são as pessoas que estão em casa, muitas vezes deprimidas, começarem a contar. Se fizerem isto, elas vão voltar a viver.
Qual é a importância do contador de histórias na sociedade?
Carlos Daitschman - Nós estamos entrando numa era de entretenimento, diversão e arte. Lembra? A gente não quer só comida... Arte é alimento, arte é remédio. Como disse a Helena Kolody, que é uma excelente contadora de histórias, eles ainda vão entender que é a arte que vai salvar o mundo...
O trabalho de pesquisa é muito forte na vida de um contador de histórias?
Carlos Daitschman - É infindável. Não podemos parar de estudar nunca.
O material está só nos livros ou também na sabedoria popular?
Carlos Daitschman - Todos nós temos as nossas histórias, as que o avô contava, que a tia ou a vizinha contavam, aquelas que morríamos de medo, mas adorávamos ouvir. Há também as histórias que estão muito presentes nas cidades de interior, onde no final da tarde as pessoas se reúnem em volta do fogão a lenha, desligam a televisão e aí começam a contar.
E na cidade grande, isto já se perdeu?
Carlos Daitschman - Não... Há muitas histórias aqui também, porque as avós continuam contando...
Mas será que hoje a televisão não está roubando um pouco deste espaço?
Carlos Daitschman - Basta que se diga era uma vez e pára tudo... Há um espaço aberto para isto. A princesa das histórias, por exemplo, não é aquela imagem mostrada na televisão, mas é como você a imagina...Os contadores de histórias se profissionalizam e continuam a estimular o imaginário infanto-juvenil com fadas, lobos e bruxas
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