O homem que retratou o sertão e revolucionou a literatura brasileira está novamente em catálogo. A Editora Nova Fronteira está cumprindo o prometido ao lançar, um por um, os livros de Guimarães Rosa, o médico que encontrou no norte de Minas Gerais a tradução de seu país.
Até o meio do ano saíram ''Ave, Palavra'', ''Estas Histórias'', ''Sagarana'' e ''Primeiras Estórias''. Mais recentemente, chegaram ''Urubuquaquá, no Pinhém'', ''Manuelzão e Miguilim'', ''Noites do Sertão'', ''Tutaméia'' e ''Grande Sertão: Veredas''.
Todos os livros trazem o poema ''Um Chamado João'', em fac-símile, de Carlos Drummond de Andrade, e textos analíticos de Paulo Rónai. O trabalho gráfico dá mais leveza ao texto. As ilustrações, embora escassas, são do curitibano Poty Lazzarotto, que já ilustrou edições anteriores do escritor.
Pela sua ousadia linguística sem poupar neologismos, ele deu à fala do sertanejo uma interpretação própria , Guimarães ganhou fama de escritor difícil, com um texto que exige constantes visitas ao dicionário. Há, porém, aqueles que acreditam que o fluxo de sua narrativa é auto-explicável, os termos vão se desnudando no correr das linhas. O consenso recai sobre sua importância para a literatura mundial.
Guimarães Rosa foi escritor único e influencia, ainda hoje, gerações. Seu regionalismo abriu caminho próprio, trabalhava a língua fundindo termos, invertendo sentidos, criando aliterações, jogando sonoridades. Vem daí palavras características como ''nonada'', ''quiquiriqui'', ''mexinflório'', ''tresdobro'', ''vezvez'', ''prascóvio''. São termos que sofreram em outras edições foram, algumas vezes, ''corrigidos'' segundo normas de ortografia que Guimarães simplesmente atropelava. As edições atuais voltaram a acatar todas as transformações arquitetadas pelo autor.
Entre os últimos lançamentos, ''No Urubuquaquá, no Pinhém'' traz novelas que, ao lado de ''Manuelzão e Miguilim'' e ''Noites do Sertão'' compunham ''Corpo de Baile''. ''No Urubuquaquá...'' subdivide-se nos contos ''O Recado do Morro'' e ''Cara-de-Bronze'', além do romance ''A Estória de Lélio e Lina''.
''Manuelzão e Miguilim'' traz personagens do sertão. Alguns foram reais como Manuelzão, capataz de vaqueiros que guiou Guimarães pela região do leito do Urucuia. Personagem raro, Manuelzão armazenava um conhecimento lacônico, de pouco blá-blá-blá. Dizem que, mesmo velhinho, insistia em andar armado.
Todas essas histórias foram lançadas originalmente em 1956, meses antes da obra-prima ''Grande Sertão: Veredas''. Narrado em primeira pessoa, obedecendo às sinuosidades do pensamento, o livro conta a história de Riobaldo, jagunço que vive um amor reprimido por Diadorim. ''Grande Sertão: Veredas'' é o resultado das viagens ao interior, do estilo seminal de um autor que dominava mais de dez línguas para trabalhar o próprio português.
''Tutaméia (Terceiras Histórias)'', de 1967, revela a profusão criativa do escritor. São 40 contos publicados no jornal Pulso, voltado aos médicos. Pelo espaço restrito, os textos são sucintos, condensando ainda mais o estilo. Foi publicado pouco antes da morte do autor.
Com tantos títulos na prateleira, não há por que desviar de Guimarães Rosa. Uma boa dica é começar a leitura por ''Primeiras Estórias'' que, embora não seja o primeiro livro do escritor, apresenta o estilo com intensidade moderada.

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