E de ‘‘Elis Especial’’, que a PolyGram ‘‘produziu’’ por conta própria para incluir na caixa de 21 títulos recém-lançada. Elis, na verdade, gravou 20 discos durante sua passagem pela gravadora, entre 1965 e 1979. O 21º volume é um apanhado de sobras de estúdio. A caixa, batizada de ‘‘Transversal do Tempo’’, traz toda a discografia remasterizada para o formato digital.
Inclui álbuns como ‘‘Samba eu Canto Assim’’ (gravação de 65 que marcou seu rompimento com a bossa nova), ‘‘Em Pleno Verão’’ (fase soul de 70, com produção de Nelson Motta), ‘‘Elis’’ (de 72, salto de qualidade e apresentação dos ‘‘novos’’ compositores João Bosco e Aldir Blanc) e ‘‘Falso Brilhante’’ (de 76, álbum com o qual lançou Belchior).
Um pouco mais amplo em seu leque de títulos, o clube de CDs MusiClub (tel. 011/3037-2600) está brindando seus associados com o catálogo da PolyGram e mais alguns álbuns gravados pela cantora nas gravadoras EMI-Odeon e WEA. Intitulado ‘‘Nada Será Como...Elis’’, seu suplemento de atualização fonográfica reúne 29 volumes da cantora, dos quais seis constituem coletâneas e discos póstumos.
João Marcelo Bôscoli assina o texto de apresentação. ‘‘Você acha que Elis cantava bem?’’ - pergunta ele. ‘‘Acha? Pois você tinha que ver ela cozinhando... Era um almoço melhor que o outro. Feijoada, tortilha, bobó de camarão, pratos mineiros. Certa vez um amigo foi almoçar pela primeira vez em casa e, surpreso com o sabor da comida, fez elogio: ‘Como você cozinha bem, Elis’. E ela respondeu sorrindo: ‘Obrigada. Você precisa me ouvir cantando.’’
Segundo o material de divulgação, faltaram apenas cinco trabalhos para completar a discografia oficial: ‘‘Viva a Brotolândia’’ (1961), ‘‘Poema’’ (1963), ‘‘Montreux Jazz Festival’’ (1982), ‘‘Elis Trem Azul’’ (1982) e ‘‘Luz das Estrelas’’ (1984). O fã colecionador, porém, deverá se perguntar: ué, e o álbum ‘‘Bem do Amor’’, que ela gravou em 1963 para a CBS? A pergunta fica no ar.
Mas diferente da caixa da PolyGram, que deve custar a média de R$ 300, essa série está disponível em títulos avulsos, sem a obrigatoriedade de desfalcar o bolso com a aquisição completa. Também aderindo ao revival-Elis, a EMI lançou este mês uma coletânea de sucessos da cantora na série Preferência Nacional. Embora tenha gravado apenas o álbum ‘‘Vento de Maio’’ pela gravadora, o lançamento garimpa hits de outras casas incluindo canções como ‘‘Trem Azul’’, ‘‘Tiro ao Álvaro’’, ‘‘Se eu Quiser Falar com Deus’’ e ‘‘Aprendendo a Jogar’’.
A súbita exumação de Elis não festeja nenhuma data especial de sua biografia, mas vem a reboque das comemorações em torno do aniversário de quarenta anos da bossa nova. Elis, como a bossa que a reteve por alguns anos e foi depois por ela rejeitada, ainda respiram.Nelson Sato
O lançamento simultâneo de um registro ao vivo não autorizado, uma caixa com 21 CDs, uma coletânea de sucessos e um projeto especial com 29 títulos, ameaça atordoar os fãs de Elis Regina.
A fornada repõe a obra da cantora em circulação, o que garante uma inestimável referência para as intérpretes emergentes - e até, por que não, para algumas veteranas cansadas. Inventora da sigla MPB, que cunhou para distinguir uma nova geração de músicos em relação à turma da bossa nova, Elis morreu há 16 anos e virou mito.
Hoje é objeto de tributos - dois álbuns em sua homenagem saem até o final do ano, um da cantora carioca Joyce e outro do grupo paulistano Vesper. Sua prodigiosa extensão vocal encantou recentemente a cantora Bjork, uma das expoentes do pop internacional e que esteve mês passado no Brasil apresentando-se no festival Close Up Planet.
‘‘Elis vai a lugares que eu gostaria de ir, mas não tenho coragem. Ela se entrega de um jeito intenso, emocional e definitivo’’ - confessou a exótica islandesa a João Marcelo Bôscoli, filho de Elis. Saudada por muitos críticos como uma intérprete sem rivais desde sua aparição no Rio, vencendo o primeiro dos célebres festivais da Canção da década de 60 com a música ‘‘Arrastão’’, Elis Regina marcou época também pelo faro fino em revelar jovens compositores e introduzir a música na televisão com o famoso programa ‘‘O Fino da Bossa’’.
Pagou micos protagonizando episódios burlescos como os bate-bocas pela imprensa com a ‘‘rival’’ Nara Leão e passeatas ‘‘contra as guitarras’’. No livro ‘‘Chega de Saudade - A História e as histórias da Bossa Nova’’, o jornalista e escritor Ruy Castro relata alguns momentos que marcaram o rompimento da intérprete com o jeito intimista de cantar da bossa nova. Diz que um dia, ao ouvi-la soltando o vozeirão, o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues comentou: ‘‘A Elis Regina faz de qualquer canção uma Marselhesa.’’
Da leva de CDs que está chegando agora ao público, nem tudo é ouro, mesmo porque o mérito de abranger todas as fases da carreira da ‘‘pimentinha’’ (apelido que ela detestava) revela tanto seus tesouros como aquelas gravações que dela só mereceriam reprovação. Este é o caso, por exemplo, do disco não-autorizado Elis Vive que a WEA colocou no mercado .

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